Já é conhecido que a Isagoge de Porfírio trouxe diversos questionamentos aos escolásticos; frente aos problemas que os predicáveis trouxeram, os medievais propuseram uma definição expositiva clássica, que difere, é claro, daquela dada pelo próprio Porfírio, mas que, de nenhuma forma, invalida uma ou outra. A definição clássica é meramente uma forma mais rigorosa e determinada de interpretar os predicáveis à luz da metafísica do ser.
A formulação das quinque voces segue o seguinte:
1) Gênero: É o que convém a algo de modo necessário in quid que, parcial e indeterminadamente, o constitui (a título de matéria inteligível).
2) Espécie: O que de modo necessário in quid convém a alguma coisa, constituindo-a totalmente.
3) Diferença Específica ou Differentia: O que de modo necessário in quale (quiditativo) convém a algo, e que, parcial e determinadamente, o constitui (a título de forma).
4) Propriedade ou Próprio: É o que de modo necessário in quale convém a uma só espécie, conversivelmente, não a constituindo mas dela emanando.
5) Acidente: É o que contingentemente convém a alguma coisa, predicando-se in quale (acidental).
Explicação:
Ora, para compreender bem esta definição, começaremos por explicar a acepção de alguns termos.
Primeiro, que é in quid?
Respondo-lhe: in quid significa "na coisa" ou "naquilo que é", ou seja, é algo que enuncia a essência da coisa a modo de sujeito ou todo subsistente. É a resposta à pergunta "Que é isto?" (Quid est?). Ilustro com um exemplo: que é o homem? Ora, um animal racional. Pois bem, dizer "Homem é animal racional" (espécie) ou "Homem é animal" (gênero) é predicar in quid, pois eu enuncio a substância do sujeito. Saiba, portanto, que predicar in quid é enunciar a essência a modo de denominação substantiva.
Segundo, que é in quale?
Respondo-lhe: in quale significa "naquilo que é qual". Aqui reside a chave para não errar: diferentemente do in quid, que diz o que a coisa é, o in quale diz qual é a coisa, ou seja, enuncia uma forma a modo de qualidade ou determinação. Mas atenção: predicar in quale não significa necessariamente predicar algo contingente. Há dois tipos de in quale: o substancial (necessário) e o acidental (contingente). A Diferença Específica predica-se in quale (pois qualifica o gênero), mas é essencial. O Acidente predica-se in quale, mas é contingente. Portanto, in quale refere-se ao modo de predicar por determinação, respondendo à pergunta "Qual é?".
Tendo explicado estes dois termos, podemos prosseguir, começaremos pelo gênero, em razão de construir uma explicação mais pedagogicamente coesa.
1) Por que o gênero constitui parcial e indeterminadamente?
Pois respondo-lhe: Constitui porque enuncia a essência (predica-se in quid). Mas constitui parcialmente porque não traz em ato todas as perfeições da espécie. Tomemos "homem": ele é "animal". A animalidade constitui o homem, mas é como uma matéria inteligível, uma capacidade de ser várias coisas (homem, cão, gato). Por isso dizemos que constitui indeterminadamente: dizer "animal" não determina o homem, pois o gênero contém as espécies em potência, aguardando a determinação.
2) Passemos agora para a Diferença Específica; Ora, por que constitui determinadamente?
Pois digo-lhe: constitui porque é parte intrínseca da essência. Mas note a sutileza: ela se predica in quale (quale quiditativo). Por quê? Porque ela chega para determinar e qualificar o gênero. Se pergunto "Que é o homem?", respondo "Animal" (gênero). Se pergunto "Qual animal?", respondo "Racional". Veja que "Racional" funciona como uma qualidade que recorta e especifica a indeterminação do gênero. Assim, a Diferença constitui parcialmente (pois pressupõe o gênero) mas determinadamente (pois atualiza a potência do gênero).
3) Passemos agora para a espécie. Por que constitui algo totalmente?
Ora, a espécie é a resultante da união do gênero (matéria) com a diferença (forma). Ao dizer "Homem é animal racional", tenho a definição completa. Por isso, a espécie é o único predicável que enuncia a essência total, predicando-se in quid dos indivíduos que diferem apenas numericamente.
4) Passemos agora para o penúltimo: a propriedade. Por que a propriedade não constitui o sujeito mas convém a ele necessariamente?
Ora, a propriedade (ou próprio) flui da essência já constituída. Ela predica-se in quale necessário. Um exemplo é a "capacidade de rir" ou "capacidade de linguagem". Você não pode imaginar um homem que não tenha, por natureza, essa aptidão. Porém, rir não é a essência do homem; é algo que emana da racionalidade. O homem é racional (essência), e por ser racional, é risível (propriedade). Logo, convém necessariamente, mas não constitui a quididade.
5) Passemos para o último: o acidente.
Tome como exemplo "Lucas tem cabelo preto". Ter cabelo preto constitui a essência humana? Não. É necessário que Lucas tenha cabelo preto para ser homem? Não. Pode estar presente ou ausente sem que Lucas deixe de ser Lucas. É uma predicação in quale (pois qualifica Lucas), mas puramente contingente. É apenas uma característica adventícia.
Depois dessa explicação corrigida e expurgada de equívocos, espero ter ficado claro o motivo da escolha rigorosa dos termos da Definição Clássica das Quinque Voces.
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Near2 dias atrásExcelente explicação; sucinta e precisa.Responder