Ó, tu, que navegas por este mar de imagens fugazes, detém por um instante o teu olhar, não para mais um fragmento de luz e som, mas para a escuridão que ele, paradoxalmente, aprofunda em ti. Considera, eu te rogo, a natureza da tua própria alma, criada à imagem e semelhança d'Aquele que é puro Ato e intelecção perfeitíssima, e vê o agravo que lhe infliges com estes espetáculos brevíssimos, estas pílulas de admiração que, em verdade, são venenos para o espírito.
A tua inteligência, essa nobilíssima potência que te distingue de todo o resto da criação visível, anseia pelo inteligível, pela verdade que se desvela na quietude da contemplação. Ela opera por abstração, separando a forma universal da matéria particular, e por composição e divisão, formulando juízos sobre o ser e o não-ser. E o que lhe ofereces tu, senão um turbilhão incessante de particularidades, um fluxo caótico de aparências sensíveis que se sucedem com tal velocidade que a razão, aturdida, jamais consegue iniciar sua obra? Tu a condenas, por tua própria vontade, a uma perpétua infância, a um estado de passividade em que apenas recebe o impacto dos sentidos, sem jamais se elevar à majestade do conceito.
E as tuas paixões, essas moções da alma que são boas quando ordenadas pela razão ao bem verdadeiro, convertem-se em tiranos. Cada um desses vídeos, esses que chamas "Reels" ou "Shorts", é uma agulha que fura o teu apetite sensitivo, provocando uma pequena e efêmera onda de prazer, de ira, de tristeza ou de riso. Tu te tornas, assim, um joguete nas mãos de um artífice invisível que modula tuas emoções, não para a virtude, mas para o vício da curiosidade insaciável e da acídia, esse tédio da alma que se afasta das coisas do espírito por lhe parecerem demasiado áridas. A tua vontade, que deveria seguir o bem apontado pela razão, segue agora o fantasma do prazer imediato, acorrentada a um ciclo de estímulo e resposta que te rebaixa à condição de um animal bem treinado.
Tu te tornas um estranho para ti mesmo, um exilado do teu próprio castelo interior...
Observa o hábito, essa segunda natureza, que em ti se enraíza. Pelo costume de consumir o que é breve, fragmentado e superficial, a tua mente, qual campo que se deixa de arar, perde a capacidade de se concentrar no que é longo, complexo e profundo. A leitura de uma página, a meditação de um mistério, o seguimento de um raciocínio demorado, tudo isso se te afigura como um esforço hercúleo, uma violência contra a tua nova natureza, que é a natureza da distração. Tu te tornas um estranho para ti mesmo, um exilado do teu próprio castelo interior, cujas salas, antes destinadas à reflexão e à oração, são agora povoadas pelos ecos ruidosos de mil nadas.
Não te enganes, pois, com a aparente inocência deste entretenimento. Nele se esconde uma desordem fundamental, uma inversão da hierarquia que deve reger a tua vida interior. O sensível subjugando o inteligível, a paixão dominando a razão, a multiplicidade aniquilando a unidade. Tu, que foste chamado à beatitude, que é um ato da inteligência na visão do Sumo Bem, te contentas com a miséria de uma felicidade servil, encontrada na sucessão interminável de imagens que nada significam e que, ao fim, te deixam mais vazio do que estavas no princípio. Abandona, portanto, esta escravidão voluntária e retorna à tua dignidade de criatura racional, cujo fim não é sentir, mas entender; não é ver passar, mas contemplar o que permanece.