Crônicas da Cidade Nimbosa
Ato I
Folha Primeira, anotada ao décimo segundo dia do mês de Outubro, no ano da Graça de Nosso Senhor de 1788.
A jornada, que por tantos meses me consumiu os dias em mares indômitos e terras selvagens, encontra agora o seu mais estranho e formidável obstáculo. Não um recife, nem uma hoste de bárbaros, mas uma muralha. Uma muralha alva e silenciosa, que não se ergue do chão, mas que pende do céu, um Aqueronte de vapor que o meu navio, o Argos, hesita em penetrar. Por três dias bordejei esta costa de névoa, que os mapas silenciam e que a agulha da bússola parece temer, sua dança tornando-se trêmula e incerta. É uma barreira que não reflete a luz, antes a devora, criando um crepúsculo perpétuo em suas imediações. O ar tornou-se frio, carregado de um odor a pedra molhada e a terra antiga, como se respirássemos o interior de uma cripta recém-aberta.
Hoje, ao romper de uma aurora que não vimos, uma corrente anômala, qual mão invisível, puxou-nos para o seio do véu. Não houve vento, não houve violência; a névoa simplesmente nos acolheu, e o mundo exterior, com seu sol e suas estrelas, tornou-se uma memória, um artigo de fé. Navegamos por horas num silêncio leitoso, onde o único som era o gotejar da condensação nos mastros e o ranger apreensivo do nosso próprio casco.
E então, como um pano de teatro que se ergue sobre uma cena de tragédia, a bruma rarefaz-se. Ante meus olhos, descortinou-se a urbe. Não a vi surgir no horizonte; ela já estava ali, inteira e acabada, como se esculpida fosse, não em pedra, mas na própria substância da melancolia. Chamei-a, em meu assombro, de Nimbosa, pois nasceu ela da nuvem e para a nuvem parece viver.
As suas torres, de uma ardósia escura que refulgia com a umidade, não se lançavam aos céus com gótica soberba; antes, pareciam curvar-se sob o peso de um pranto incessante. Pois na cidade chove. Não uma chuva de tempestade, violenta e passageira, mas um pranto fino, vertical, eterno. Uma caligrafia de água que risca o ar e se torna a única música deste lugar. As ruas, como as concebemos, não existem. Em seu lugar, uma rede de canais de águas escuras e mansas corta a cidade, artérias plúmbeas por onde a vida, se é que aqui há vida, deve fluir. As casas, de pedra cinzenta salpicada pelo verde-escuro do limo, apertam-se umas contra as outras, suas janelas como olhos vazios e indiferentes. E por toda parte, as gárgulas. Figuras de pedra, contorcidas em agonias silenciosas, de cujas bocas não brota o grito, mas um fluxo constante de água, como se vomitassem o próprio céu que as oprime.
Ancoramos o Argos numa baía abrigada onde a água dos canais encontra o mar cinzento. A beleza deste lugar é inegável, mas é uma beleza severa, tumular. Uma beleza que não convida à alegria, mas à introspecção e a um temor reverente. Sinto em meus ossos que não descobri apenas uma nova terra no mapa do mundo, mas um estado de alma, um lugar onde a própria natureza se rendeu a uma tristeza perpétua.
Para que minha exploração se iniciasse, era imperativo adentrar a cidade. Da amurada, vi aproximar-se, deslizando sem esforço pelo canal principal, uma barca delgada e negra, movida por um único homem de pé à popa. Não remava com pressa, mas com uma economia de movimentos que beirava a inércia. Era como se o barco e o homem fossem uma única entidade, nascida daquelas águas escuras.
Fiz-lhe um sinal. Ele aquiesceu com um quase imperceptível movimento de cabeça e atracou junto à escada de nosso navio. Desci, sentindo os olhares curiosos e apreensivos de minha tripulação em minhas costas. O homem que me aguardava era talhado no mesmo material da cidade. A pele, de uma palidez doentia, parecia nunca ter conhecido o sol. Os cabelos, de um negro liso, colavam-se-lhe à testa sob o chuvisco constante. Mas foram seus olhos que me detiveram o espírito: duas poças de água estagnada, onde nenhuma emoção, nem curiosidade, nem hostilidade, parecia habitar. Vestia um casaco de lã grossa, escurecido pela umidade.
”Avante, bom homem,”disse eu, minha voz soando estranhamente alta e artificial naquele ambiente. ”Levo-me ao coração da cidade, se houver um cais ou praça central.”
Ele me fitou, o seu olhar passando por mim como se eu fosse de vidro. Por um momento, julguei que não me responderia. Então, uma única sílaba escapou-lhe dos lábios, um som gutural, como o de uma pedra a rolar no fundo de um poço. ”Cobre.”
Compreendi. Era o preço da passagem. Tateei a bolsa e retirei uma moeda de cobre, que lhe estendi. Ele a tomou com dedos frios e rijos, sem um gesto de agradecimento, e guardou-a nalgum bolso oculto. Indicou-me com o queixo um assento baixo na proa da barca.
A viagem iniciou-se em silêncio. A barca não produzia marola, cortando a água negra com a precisão de uma lâmina. Passávamos sob pontes de pedra arcadas, tão baixas que quase me obrigavam a curvar. As fachadas dos edifícios erguiam-se como penhascos de ambos os lados, e as gárgulas, vistas de baixo, pareciam observar-nos com um desprezo pétreo. Tentei novamente a comunicação, movido mais pela minha natureza de inquiridor do que por qualquer esperança.
”Há muito viveis aqui?”, perguntei. Um aceno de cabeça. ”Como se chama esta cidade em vossa língua?”Ele franziu o cenho, um movimento mínimo, como se a pergunta fosse um absurdo conceitual. ”Cidade,”respondeu, por fim. A palavra soou vazia, desprovida de qualquer orgulho cívico. ”E vós, tendes um nome?”Desta vez, o silêncio foi sua única e definitiva resposta. Ele voltou o seu olhar para a proa, para o caminho que se abria à nossa frente, encerrando a conversação com uma finalidade que nenhuma palavra rude poderia igualar. Era uma muralha de indiferença, mais impenetrável que o nevoeiro que havíamos cruzado.
Ele me deixou num pequeno cais de pedra, junto a uma escadaria que subia para uma viela escura. Entreguei-lhe outra moeda, que ele aceitou com a mesma impassibilidade. Sem uma palavra, sem um olhar, ele empurrou a barca com seu longo remo e desapareceu na cortina de chuva, deixando-me só, com o som das minhas próprias botas no lajedo molhado e a sensação avassaladora de ser o primeiro homem a pisar num mundo onde as almas se haviam petrificado.
A viela desembocou numa praça irregular, dominada pelo vulto de um edifício que, por sua torre sineira, julguei ser uma catedral. O silêncio era profundo, quebrado apenas pela melodia monocórdica da chuva e pelo ecoar dos meus passos. Foi então que vi um sinal, uma tábua de madeira escura pendurada sobre uma porta, onde a pintura de um cálice a verter uma única gota ainda resistia ao tempo. Sob a imagem, letras gastas formavam o nome: ”A Gota Fria”. Era uma estalagem. A única chama de vida naquela desolação era a luz amarelada e fraca que tremeluzia por detrás de uma das janelas.
Empurrei a porta pesada de carvalho, que se abriu com um gemido de protesto. O ar que me recebeu era denso, um caldo de odores a lenha húmida, lã molhada e um vago aroma de sopa de raízes. O salão era baixo e sombrio, iluminado por uma lareira onde as chamas lutavam com mais fumo do que calor, e por alguns candeeiros de azeite que lançavam mais sombras do que luz.
Atrás de um balcão de madeira escura, uma mulher enxugava um copo de estanho com um pano. Era uma criatura feita de ossos e ângulos, o rosto um mapa de vincos severos, os cabelos grisalhos presos num coque tão apertado que parecia repuxar-lhe a pele. Seus movimentos eram bruscos, precisos, desprovidos de qualquer suavidade. Ela ergueu os olhos quando entrei, e neles encontrei o mesmo vácuo que vira no barqueiro.
”Um quarto e uma refeição quente,”anunciei, tentando infundir em minha voz uma cordialidade que o ambiente repelia.
Ela pousou o copo com um baque seco. ”Há um quarto. A sopa é de hoje.”Sua voz era como o ranger de madeira seca, áspera e sem inflexão. Apontou para uma mesa vazia num canto.
Sentei-me. Havia outros três homens no salão, cada um em sua própria mesa, distantes uns dos outros. Comiam em silêncio, com a gravidade de quem cumpre um rito fúnebre, os olhos fixos em seus pratos. Não conversavam, não se olhavam. A única comunicação era o raspar de suas colheres de madeira no fundo das tigelas de barro. Eram como ilhas de misantropia num mar de silêncio.
A mulher trouxe-me a sopa. Era um caldo espesso, insípido, mas quente. Colocou a tigela e um pedaço de pão escuro na minha frente sem uma palavra. Enquanto eu comia, atrevi-me a mais uma tentativa de diálogo.
”É uma cidade notável,”comentei, dirigindo-me a ela, que voltara a postar-se atrás do balcão. ”Chamam-na de Nimbosa em meus mapas.”
Ela deu de ombros, um gesto que continha uma infinidade de desdém e cansaço. ”É um nome,”disse, como se a palavra fosse um fardo. ”Chove. Comemos. Dormimos. É tudo.”
Essa resposta, em sua simplicidade brutal, calou-me mais fundo do que qualquer discurso. ”Tudo.”Naquela palavra residia a filosofia inteira daquele povo. Uma redução da vida à sua mais crua e mecânica existência.
Terminada a refeição, ela me guiou por uma escada até um pequeno quarto no andar de cima. O mobiliário consistia numa cama estreita com uma manta de lã áspera, uma bacia, um cântaro e uma pequena mesa sob a janela. Não havia cortinas. A vidraça, percorrida por filetes de água, distorcia a visão da torre da catedral lá fora. O som da chuva no telhado de ardósia era constante, íntimo, inescapável. Não era um som que embalasse o sono, mas uma presença que se infiltrava no pensamento, uma clepsidra líquida a medir um tempo que parecia não passar.
É daqui, deste quarto úmido, que escrevo estas linhas, à luz de uma vela que chisporroteia. O Argos parece uma memória de outro mundo, um mundo de sol e de conversa. Sinto-me como um nauta que não descobriu uma ilha, mas que naufragou nela. A cidade não é hostil, é algo pior: é indiferente. Seus habitantes não são selvagens; são... ocos. Há um mal antigo nestas pedras, uma doença da alma que tornou a todos rudes, ásperos, como se o polimento da civilidade tivesse sido erodido por esta chuva sem fim. Minha missão era cartografar a terra; pressinto que terei, antes, de tentar mapear a natureza desta vasta e desoladora tristeza.
Ato II
Folha Quarta, datada de uma semana após minha chegada. O tempo aqui não se mede pelo sol, mas pela espessura do limo nas pedras.
Instalado na gélida hospitalidade da estalagem ”A Gota Fria”, impus-me a disciplina do meu ofício. Se este lugar existe, há-de render-se à razão, à régua e ao compasso. Assim, dediquei os dias que se seguiram a traçar-lhe os meridianos e paralelos, a sondar-lhe a profundidade dos canais, a nomear-lhe as praças mudas e as pontes arcadas. Contudo, cedo percebi que meu trabalho não era o de um cartógrafo, mas o de um anatomista a dissecar um corpo do qual a alma já se esvaiu. Meu diário encheu-se não de mapas, mas de um inventário de ausências.
A vida de Nimbosa, se assim se pode chamar, rege-se por um ritmo aquático e invariável. Ao amanhecer, que é apenas um cinzento menos escuro que o da noite, as barcas de carga, longas e baixas como esquifes, principiam o seu lento percurso pelos canais. Transportam pedras de uma margem a outra, sacos de grãos pálidos, tecidos de uma cor indecisa entre o cinza e o luto. Os barqueiros, figuras idênticas em seu negrume e silêncio, não trocam saudações. O único som de sua passagem é o mergulho compassado e fúnebre do remo na água oleosa.
Os mercados, que em qualquer outra urbe do mundo seriam um festim de cores, vozes e cheiros, são aqui assembleias de espectros. As bancas de pedra expõem raízes disformes, peixes de escamas prateadas como moedas velhas, pães escuros e densos. As trocas são feitas em silêncio. Um habitante aponta para o que deseja; o vendedor pesa a mercadoria numa balança de bronze e estende a mão. O pagamento é feito com pequenas fichas de ardósia ou, mais frequentemente, pelo escambo de outro produto igualmente funcional. Não há regateio, não há conversa, não há o menor vislumbre de comunidade. As pessoas chegam, adquirem o necessário para a sua subsistência e partem, como sombras que se reabastecem de matéria para poderem continuar a projetar-se no dia seguinte.
Mas o que mais fala desta amnésia pétrea são as estátuas. Há-as em cada praça, em cada largo. Figuras de reis, de heróis ou de deuses, já não se sabe. A chuva perpétua, numa paciência de séculos, roeu-lhes os traços, poliu-lhes as feições até à indistinção. Os narizes são escorridos, os olhos, órbitas rasas. As placas de bronze em seus pedestais são lisas, esverdeadas pelo zinabre, tendo cada letra, cada data, sido já chorada e levada pela água. São monumentos ao nada, memoriais do esquecimento. Afogados em pedra, testemunham uma história que a própria cidade se esforçou por apagar.
Nestes dias de exploração, tornei-me eu mesmo uma anomalia. Sou o único que caminha sem destino aparente, o único que se detém para observar um detalhe arquitetônico, o único cujo olhar busca o dos outros. E os outros sentem-no. Desviam-se de mim, não com medo, mas com uma irritação contida, como se a minha curiosidade fosse uma quebra de etiqueta, uma ofensa à sua paz vazia. Começo a sentir sobre meus ombros o peso desta atmosfera. Uma lassidão estranha invade-me os membros e, por vezes, dou por mim a olhar a chuva a cair, a mente tão vazia quanto o céu, perdendo o fio dos meus próprios pensamentos. Sou um fantasma febril num purgatório de autômatos, e temo que o contágio desta apatia seja mais perigoso que qualquer febre dos pântanos.
Insatisfeito com a observação distante, que apenas me revelava a superfície do mistério, decidi forçar o diálogo, procurar os artífices da cidade, aqueles que, por dever de ofício, deveriam conhecer-lhe os segredos. Busquei um ferreiro, um bibliotecário e um guarda, três pilares de qualquer sociedade: a força que transforma, a mente que preserva e a ordem que protege. Encontrei apenas três variedades da mesma pedra.
A forja do ferreiro era uma caverna de fogo e vapor no coração da cidade. O ar pesado de humidade sibilava ao tocar o metal incandescente. O homem era um gigante de braços nodosos, o rosto manchado de fuligem. O seu martelo caía sobre a bigorna com uma regularidade que não era de homem, mas de mecanismo. Aproximei-me no intervalo de seus golpes.
”Belo trabalho,”disse eu, apontando para um fecho de portão, complexo em seu desenho. ”De onde vem a forma? É um padrão antigo?”
Ele olhou para o fecho como se o visse pela primeira vez. ”É um fecho,”disse, a voz rouca pelo calor e pelo desuso. ”O metal dobra-se ao fogo e ao martelo. A forma é a que deve ser.”
”Mas quem vos ensinou a arte? Vosso pai? Um mestre?”
Ele limpou o suor da testa com o antebraço. ”Eu sou o ferreiro. Faço o que um ferreiro faz.”Não havia orgulho em sua voz, apenas a constatação de um facto, tão irrefutável como a chuva lá fora. Ele era a função, não o homem.
Deixei-o na sua cadência infernal e busquei a biblioteca. Encontrei-a num edifício baixo e sem janelas, cujas portas se abriam para uma escuridão que cheirava a papel a apodrecer. O bibliotecário era um velho espectral, tão coberto de pó quanto os volumes que guardava. A luz de seu candeeiro revelava estantes de livros encadernados em couro escuro, as lombadas inchadas pela humidade.
”Busco a história de Nimbosa,”pedi, com o coração a palpitar de uma esperança tola. ”Uma crônica de sua fundação, de seus reis, de seu povo.”
O velho, sem uma palavra, caminhou lentamente até uma estante e, com esforço, retirou um pesado tomo. Depositou-o sobre uma mesa com um baque surdo. Abri-o com reverência. As páginas, de um pergaminho grosso e amarelado, estavam quase em branco. Manchas de tinta, como aguarelas cinzentas, eram tudo o que restava de uma escrita antiga. Frases inteiras, parágrafos, capítulos, haviam sido diluídos, deixando apenas fantasmas de letras, hieróglifos indecifráveis de uma narrativa afogada.
”A tinta... desvaneceu-se,”murmurei, incrédulo.
O bibliotecário olhou para o livro com seus olhos mortiços. ”A chuva guarda a história,”disse ele, numa voz que era um sussurro de papel seco. ”As palavras voltam para a água. É mais seguro assim.”E naquela frase terrível, compreendi que aquilo não era uma tragédia para ele, mas a ordem natural das coisas. Esta não era uma biblioteca para a memória, mas um mausoléu para ela.
Por fim, abordei um guarda, postado imóvel numa das pontes principais. Coberto por uma capa de couro oleado, o seu rosto escondido sob a aba de um elmo, parecia mais uma das gárgulas da cidade.
”Bom homem,”comecei. ”De que guardais vós a cidade com tanta vigília? Há perigos externos? Ladrões internos?”
A cabeça coberta pelo elmo virou-se lentamente na minha direção. Senti um olhar vazio a perscrutar-me. ”Guardo a ordem.”
”E que ordem é essa? A lei do vosso regente?”
”A ordem,”repetiu ele, com uma paciência terrível. ”A rotina. O fluxo dos canais. A cadência da chuva. Tudo está como deve estar. Eu guardo para que continue assim.”Ele não era um protetor contra o caos, mas um carcereiro da permanência.
Retirei-me, o espírito mais pesado do que nunca. Aquelas conversas não foram diálogos, mas colisões contra muros de pedra. Os habitantes de Nimbosa não eram pessoas, no sentido que damos à palavra; eram homens-gárgula, fundidos com a arquitetura de sua prisão, cumprindo funções eternas cujo propósito original se perdera, lavado pela mesma chuva que lhes lavara os livros e as almas.
Nos dias que se seguiram à minha malfadada investigação, uma apatia profunda abateu-se sobre mim. Vagueava pelos canais, não mais como um explorador, mas como um condenado a medir os limites da sua cela. A cidade estava a vencer-me, a sua tristeza a infiltrar-se em mim como a humidade se infiltrava em minhas roupas. Minha pena hesitava sobre o diário, pois que mais havia a relatar senão a mesma e cinzenta repetição? Foi no auge deste desespero, quando a ideia de ordenar ao Argos que levantasse âncora e me levasse para longe deste purgatório se tornava mais tentadora, que o vi.
Foi um acaso, um desvio do olhar fatigado. Numa das torres mais altas e esguias da cidade, talvez um antigo campanário que se erguia sobre os demais telhados, havia uma janela ogival. E nessa janela, contra a monocromia universal de pedra molhada e céu plúmbeo, havia uma mancha de cor. Um ponto de um carmesim tão vivo, tão intenso, que pareceu ferir-me a vista. Era uma flor. Uma única flor, numa pequena floreira de barro, cujas pétalas aveludadas pareciam beber a luz cinzenta e transformá-la em pura cor, numa alquimia impossível. Era uma afronta. Um desafio. Uma gota de sangue vivo no coração de um cadáver.
Fiquei a olhá-la, fascinado, o coração a bater descompassado. Aquela flor não podia existir ali. Contrariava todas as leis daquele universo. Era um erro na caligrafia da chuva, uma nota dissonante na sinfonia da ausência. As gotas de água que nela pousavam não eram lágrimas de tristeza, mas jóias que lhe realçavam a beleza insolente.
Movido por um impulso irresistível, aproximei-me de uma mulher que passava, carregando um cesto de raízes. Apontei para o alto, para a torre. ”Aquela flor,”disse eu, a voz embargada por uma emoção que me surpreendia. ”Sabeis quem a cultiva? É a única cor em toda a cidade.”
A reação da mulher foi imediata e violenta. Ela não olhou para onde eu apontava. Seu rosto, antes uma máscara de impassibilidade, contraiu-se numa expressão de pavor e fúria. Sibilou algo que soou como uma maldição, apertou o cesto contra o peito e afastou-se de mim a passos rápidos, quase a correr, sem olhar para trás. Tentei com um mercador que descarregava sua barca. Ao ouvir minha pergunta e seguir meu dedo apontado, ele deixou cair um saco de grãos na água e fez um sinal arcano com a mão, virando-me as costas como se eu tivesse invocado um demónio.
Um calafrio percorreu-me a espinha, mas não era de medo. Era de exaltação. Pela primeira vez, eu provocara uma reação que não era indiferença. Pela primeira vez, eu tocara num nervo exposto sob a pele de pedra daquela cidade. Aquela flor não era apenas uma anomalia; era um tabu. Um segredo guardado com um terror supersticioso.
E ali, parado no meio da praça, com a chuva a escorrer-me pelo rosto, encontrei de novo o meu propósito. Aquela flor tornou-se a minha Estrela Polar, o meu Graal. Ela era a prova de que algo resistia à erosão da chuva, de que uma memória de cor, de vida, de beleza, se recusava a morrer. E eu haveria de descobrir o que era.
A torre erguia-se diante de mim, silenciosa e inacessível. O meu próximo passo estava traçado. Teria de subir. Teria de alcançar aquela janela, aquele farol carmesim na imensidão cinzenta de Nimbosa.
Ato III
Folha Nona. Ouso não mais datar estas páginas. O tempo aqui é uma poça que não se move, e temo que, ao contá-lo, eu me afogue nele.
A torre. Tornou-se o meu único norte, a minha obsessão. Em meus sonhos febris, via-a não como pedra, mas como o dedo de um titã petrificado, a apontar uma acusação ao céu que o oprime. Aproximei-me de sua base com a cautela de um peregrino a chegar a um santuário proibido. A sua pedra era de um granito mais escuro que o do resto da cidade, e as paredes erguiam-se lisas, sem portas ou portões visíveis, como se a torre tivesse brotado da terra, inteira e impenetrável. As águas do canal que a circundavam eram mais paradas, mais negras, refletindo a sua silhueta com uma perfeição vítrea.
Circundei-a por completo, o coração a martelar contra as costelas. A chuva, aqui, parecia cair com uma reverência hesitante, as gotas a perderem a sua força antes de tocarem o solo sagrado em redor da base. Foi então que vi, oculta por uma cascata de hera escura que se derramava pela parede como um luto vegetal, uma fenda. Uma abertura estreita e baixa, mais uma ferida na pedra do que uma entrada lavrada por mão humana.
Adentrei-a, curvando o corpo. A transição foi imediata e absoluta. O som da chuva, que fora a constante de minha existência por tantas semanas, amorteceu-se de súbito, tornando-se um sussurro distante, o rumor de um mar longínquo. O ar, antes carregado de humidade, tornou-se seco, denso com o aroma de pó de séculos e de algo mais, um odor subtil e orgânico, como de pétalas secas e papel antigo.
À minha frente, nascia a espiral de uma escadaria de pedra. A luz era escassa, provinda de seteiras estreitas, rasgadas na parede a intervalos irregulares. Comecei a subida. Cada degrau era côncavo, gasto pelo fantasma de pés incontáveis. A escada subia em caracol, uma ascensão vertiginosa pela espinha dorsal de um leviatã de pedra. O silêncio era tão profundo que eu ouvia o sangue a pulsar em meus ouvidos, a respiração a arrastar-se em meus pulmões. Subi por um tempo que me pareceu uma eternidade, perdendo a noção de quantos lances já vencera. O mundo exterior, a cidade cinzenta, desvanecia-se a cada passo, tornando-se um conceito, uma memória distante. Eu não subia apenas numa torre; eu ascendia através das camadas do esquecimento.
Finalmente, a escada terminou num patamar que se abria para uma câmara circular. E aqui, a respiração faltou-me. O aposento era vasto, todo o diâmetro da torre, e a sua abóbada perdia-se na penumbra. Não era um campanário. As paredes estavam forradas, do chão ao teto, com estantes de uma madeira escura e polida, repletas de livros. Livros! E estavam secos, as suas lombadas de couro intactas, os seus títulos gravados a ouro, brilhando timidamente à luz que entrava, majestosa, pela grande janela ogival.
No centro da sala, repousava um mecanismo estranho, uma complexa esfera armilar feita de bronze e cristal, cujos anéis e lentes se entrecruzavam numa harmonia silenciosa e incompreensível. Não era um engenho de astronomia, nem de relojoaria. Parecia um instrumento musical para um músico de estrelas, ou um tear para tecer os fios da própria luz. E junto à janela, na sua modesta floreira de barro, estava ela. A flor. De perto, o seu carmesim era ainda mais profundo, cada pétala uma obra-prima de veludo vivo. Era o coração pulsante daquele lugar, e a sua beleza era tão intensa, tão pura, que se tornava quase dolorosa de contemplar.
Este lugar era uma arca. Uma arca a flutuar, incólume, sobre o dilúvio de desmemória que afogara o mundo lá em baixo. Era um santuário da palavra, da cor, do saber.
”Ela é bela, não é?”
A voz, vinda da sombra junto a uma estante, fez-me sobressaltar. Era uma voz idosa, mas não era a voz ríspida e funcional dos nimbosanos. Era uma voz cansada, mas melodiosa, como um instrumento de cordas há muito não tocado.
Da penumbra, uma figura avançou. Um homem de uma idade impossível de calcular, frágil como uma folha seca, envolto num manto escuro. Os seus cabelos eram longos e de uma brancura de neve, a pele, um pergaminho onde cada ruga era uma linha de uma história terrível. Mas os seus olhos... os seus olhos estavam vivos. E neles, não havia o vácuo da cidade, mas uma tristeza vasta como o oceano, uma sabedoria forjada em dores milenares.
Ele parou diante de mim, o seu olhar perscrutando não o meu rosto, mas a minha alma.
”Poucos encontram esta escada,”disse ele. ”Menos ainda a sobem. Diga-me, forasteiro que transborda de memórias... o que busca no coração do silêncio?”
Diante daquela figura patriarcal, as minhas perguntas, antes tão urgentes, pareceram-me grosseiras, infantis. Ele não era um habitante; era o antípoda de tudo o que eu vira. Ele era a memória encarnada.
”Eu busco a compreensão,”respondi, a voz a soar-me estranha. ”Busco o porquê desta cidade, desta chuva, desta tristeza que não tem nome.”
O velho sorriu, um movimento triste de seus lábios finos. ”Você busca a doença da qual este lugar foi curado. A cor,”disse ele, apontando para a flor, ”é o sintoma mais belo da mais terrível das febres: o sentir.”
Convidou-me a sentar numa cadeira de madeira junto à janela, enquanto ele permanecia de pé, como uma sentinela eterna. E então, ele narrou. A sua voz teceu o conto que os livros afogados já não podiam contar.
Nimbosa, contou ele, nem sempre fora cinzenta. Em eras passadas, chamava-se Alúria, a Cidade das Cores. Era uma civilização de paixões extremas. O seu amor era uma fogueira que consumia, o seu génio criava arte que fazia os deuses chorar, e o seu ódio forjava tragédias que faziam eco nos séculos. Viviam na mais alta exaltação e, por conseguinte, na mais profunda agonia.
Até que veio a Grande Mágoa. Ele não a descreveu com detalhes, mas com metáforas de uma dor tão vasta que a própria realidade se verga. Uma traição cósmica, um crime coletivo, uma perda tão absoluta que o sol se envergonhou e se escondeu. A dor tornou-se o único ar que respiravam, o único pão que comiam. A civilização, envenenada pela sua própria memória, estava a morrer, a devorar-se a si mesma num luto sem fim.
”Então,”continuou o velho, os seus olhos a fitarem a chuva lá fora, ”os nossos ancestrais, no auge do desespero, fizeram uma prece. Não a um deus externo, mas ao próprio espírito da cidade, à entidade que dormia nas pedras. E não pediram felicidade, nem salvação, nem esperança. Pediram algo muito mais radical. Pediram o fim da dor.”
E a cidade respondeu. A chuva, que antes era apenas chuva, mudou de natureza. Tornou-se senciente. Começou a cair, fina e incessante, e com cada gota, lavava algo. Primeiro, lavou a Grande Mágoa. O povo sentiu um alívio imenso, uma paz que já não conhecia. Mas a chuva não parou. Continuou a lavar. Lavou as memórias que geraram a mágoa. Depois, lavou as alegrias que tornavam a perda tão dolorosa. Lavou a ambição, o amor, o ciúme, a arte, a poesia. Lavou a individualidade, a noção do ”eu”, até que nada restou senão a função pura, a casca do ser, a rotina como única liturgia.
”Eles não são controlados, forasteiro,”disse o velho com uma voz suave. ”São livres. Livres da tortura de ser-se. Trocamos a alma pela paz. Demos a memória em resgate do sofrimento. E foi uma troca justa. A aspereza deles é apenas o som de vasos vazios a tocar uns nos outros.”
”E vós?”, perguntei, maravilhado e horrorizado. ”Por que vos lembrais?”
”Porque alguém tem de o fazer,”respondeu ele, e pela primeira vez, vi um brilho de agonia em seus olhos. ”A paz deles exige um sacrifício. Eu sou o Guardião. O último que, por escolha, recusou o batismo da chuva. Eu recolhi em mim toda a memória de Alúria, toda a sua glória e toda a sua dor. Eu sou o repositório da Grande Mágoa. Eu sofro por eles todos, para que eles possam não sofrer. Sou a âncora que impede que esta cidade se dissolva por completo na água.”
Olhei para a flor. ”E a flor?”, sussurrei.
”É o meu único pecado. A minha única indulgência,”disse ele. ”Eu pego na mais atroz das memórias, a mais insuportável das dores, e transformo-a. Destilo-a nesta beleza. A flor é nutrida pelo veneno do passado. É por isso que a temem lá em baixo. A cor é uma recordação da febre que quase os matou.”
O mecanismo de bronze, explicou ele, era o Harmonizador, o foco através do qual os antigos canalizaram a sua vontade para despertar a Chuva. Agora, jazia dormente, um monumento à prece mais terrível que alguma vez foi atendida.
A revelação caiu sobre mim, não como uma luz, mas como uma laje de pedra. O mistério que eu tanto buscara desvendar era uma tragédia de proporções divinas. Eu estava na presença de um Atlas, de um Prometeu que, em vez de roubar o fogo, roubara a escuridão para si mesmo.
E foi nesse momento de compreensão que o senti. Um frio que não era do ar, mas que brotava do âmago de meu ser. A câmara, que me parecera um santuário, tornou-se subitamente opressiva. O som da chuva lá fora, antes um sussurro, engrossou, tornou-se um rugido surdo, uma presença a pulsar contra as paredes da torre.
”Ela sentiu-o,”disse o Guardião, a sua voz grave. ”A Chuva. A consciência de Nimbosa. Você é uma dissonância. Um recipiente que transborda de memórias, de sentimentos, de ser. E ela não tolera a febre em seu corpo pacificado. Ela reclama-o.”
Uma pressão invisível envolveu-me. Tentei pensar no Argos. O nome do meu navio soou-me estranho na mente, as letras a quererem desfazer-se. Tentei evocar o rosto de minha mãe; a imagem surgiu, mas pálida, como um retrato deixado ao sol por demasiado tempo. A minha paixão pela descoberta, o fogo que me movera através dos oceanos, pareceu-me uma ambição tola, cansativa. Uma voz silenciosa, a própria voz da chuva, sussurrava em minha alma, oferecendo-me a paz, o alívio, o fim do fardo de ser Caetano. A tentação era doce e terrível, como o canto de uma sereia a prometer o silêncio do fundo do mar.
”Aceite-a,”murmurou o Guardião, a sua face um misto de compaixão e dever. ”A paz é um dom raro.”
O pânico, frio e lúcido, apoderou-se de mim. Vi o meu destino: tornar-me mais um vulto nos canais, o meu diário uma coleção de folhas em branco. E revoltei-me. Com toda a força do meu ser, lutei contra a dissolução. Ancorei-me. Recitei, em pensamento, os primeiros versos da Odisseia, que meu pai me ensinara: ”Fala-me, Musa, do homem de mil estratagemas...”As palavras eram um escudo. Forcei-me a desenhar na mente, com uma precisão desesperada, o mapa da costa de Portugal. Cada baía, cada cabo. E então, fiz o mais difícil: foquei-me numa memória, uma só. O cheiro dos limões no jardim de minha casa após uma chuva de verão. O som do riso de uma mulher que amei. Concentrei-me nesse som, nesse cheiro, com a força de um moribundo a agarrar-se à vida.
O meu olhar fixou-se na flor. O seu carmesim era a bandeira da minha rebelião. Era a prova de que a memória, por mais dolorosa que fosse, continha uma beleza que a paz do vazio jamais poderia igualar. A dor de sentir era o preço da vida.
Senti algo estalar dentro de mim. A pressão recuou. O ar voltou a encher-me os pulmões. Eu tremia, exausto como se tivesse lutado contra um exército. O rugido da chuva voltou a ser um sussurro. Eu vencera. Ou, pelo menos, sobrevivera à primeira investida.
O Guardião olhou-me, e pela primeira vez, vi em seus olhos um brilho de respeito, talvez até de inveja. ”És mais forte do que pensei. Ou talvez a tua dor seja mais preciosa para ti.”
Ele fez um gesto em direção à escadaria. ”Vai. Não há nada para ti aqui. Não podes salvar-nos, pois não queremos ser salvos. E se ficares, a Chuva não descansará até te reclamar. Leva a tua dor contigo. É o teu tesouro e a tua maldição. Foge, antes que te esqueças do caminho de volta.”
Levantei-me, as pernas trémulas. Lancei um último olhar à flor, um adeus silencioso a toda a beleza e tragédia que ela representava. Depois, dei as costas ao Guardião da Memória e comecei a minha descida, de volta à cidade cinzenta, sabendo que já não era um explorador, mas um fugitivo. A corrida contra o esquecimento tinha começado.
Ato IV
Folha Décima. Escrita já sob o teto de meu próprio navio. Mas o lar é apenas um arranjo de tábuas e alcatrão, e já não sei se a minha alma habita em meu corpo.
A descida foi uma queda. A escadaria em espiral, que na subida me parecera a ascensão a um céu de conhecimento, na volta se converteu na garganta de um monstro a tentar engolir-me, a puxar-me de volta para o seu ventre de pedra. Cada degrau para baixo aumentava o volume do rumor da chuva, que já não era um sussurro, mas uma aclamação faminta, o som de um milhão de dedos a tamborilar, à espera de reclamar o que era seu. O ar rarefeito da torre deu lugar, de golpe, à atmosfera densa e húmida da cidade, e senti-a como um afogado que, após um hausto de ar, é de novo submergido.
Ao emergir da fenda na parede, a Chuva recebeu-me. Não como a chuva que eu conhecera toda a vida, mas como uma entidade viva e hostil. Cada gota que me tocava a pele era um toque gelado de esquecimento, cada pingo que me caía sobre o casaco parecia pesar uma tonelada. Era um batismo forçado, uma unção de apagamento que eu agora compreendia em toda a sua terrível magnitude.
A cidade, antes apenas melancólica, transfigurara-se aos meus olhos. Eu, que agora detinha o seu segredo, via-a como ela era: uma conspiração de vácuos, uma arquitetura de aniquilação. Os habitantes que cruzavam o meu caminho já não me pareciam rudes; pareciam-me completos. E a sua paz era a coisa mais monstruosa que eu já vira. O seu caminhar mecânico, o seu olhar vazio, o seu silêncio funcional... tudo era um hino à vitória da não-existência. Eu era o único louco, o único doente naquele hospital de almas curadas.
Corri. Pelas margens dos canais, por sob as pontes de pedra onde as gárgulas pareciam agora sorrir com um desprezo líquido, corri. Não me dirigi à estalagem; sabia que aquele quarto seria a minha tumba, que adormecer ali seria render-me. O meu único rumo era o cais, a madeira familiar do Argos, a minha arca de salvação num mundo que se afogava em si mesmo.
Ao passar pela praça do mercado, vi-os. O ferreiro a empilhar as suas ferramentas com gestos precisos, a estalajadeira a esvaziar um balde de água no canal, o guarda imóvel sobre a sua ponte. Olhei para eles e, pela primeira vez, não vi enigma, mas a solução. Eram monumentos à paz da aniquilação, felizes na sua liberdade de não serem. E eu, com a minha alma a fervilhar de pavor e de memórias, era um anacronismo, um erro, um fantasma de um mundo de paixões que ali não tinha mais lugar.
A visão do mastro principal do Argos, a recortar-se contra o céu cinzento, foi como a visão da cruz para um mártir. Corri pela prancha de embarque, gritando ordens aos meus homens, que me olhavam espantados, vendo não o seu capitão, mas um animal acossado, de olhos desvairados e roupas encharcadas. ”Levantar âncora! Içar as velas! Agora! Pelas vossas vidas, agora!”
Eles obedeceram, movidos pela urgência em minha voz. E enquanto o navio se afastava lentamente daquele cais de pedra, eu senti o abraço da Chuva a tentar reter-me, a sussurrar-me promessas de silêncio e de fim.
Na segurança precária de minha cabine, com o navio a gemer sob o esforço de se libertar da baía, abri este diário. A minha última e mais desesperada tarefa: registar a verdade antes que ela me fosse roubada. A minha mão, segurando a pena, tremia violentamente.
Comecei a escrever com uma fúria febril, tentando verter para o papel tudo o que vira e ouvira na torre. Escrevi sobre o Guardião, sobre a Grande Mágoa, sobre a Chuva que lava a alma. As frases saíam longas, complexas, no meu estilo de sempre, mas havia um desespero nelas, a urgência de quem constrói uma fortaleza de palavras contra um inimigo invisível.
... a cidade escolheu o nada como seu redentor, e a paz que encontrou é a paz do túmulo. O Guardião carrega em si a dor de um povo inteiro, um Cristo às avessas, que não morre para salvar as almas, mas para que elas possam morrer em vida e encontrar o descanso...
Mas, a meio de um parágrafo, a pena hesitou. A palavra ”redenção”pareceu-me subitamente oca. Olhei para ela, escrita na página. As letras dançaram. O seu significado fragmentou-se. Tentei continuar, mas a sintaxe, a minha fiel serva, começava a rebelar-se.
A Chuva. Mesmo aqui, em meu navio, eu a ouvia no convés. E a sua melodia era um solvente.
Tentei de novo. A minha caligrafia, antes firme e floreada, tornou-se angular, apressada.
A chuva... não é água. É... esquecimento. Tira a... a coisa que dói. A memória. O Guardião disse para fugir. A flor era vermelha. Vermelho. Lembro-me de cores. Havia o vermelho. E o cinzento.
O meu pensamento, antes um rio caudaloso, tornara-se uma corrente intermitente, a saltar de pedra em pedra. A lógica que sempre me guiara desfazia-se. Olhei para a página. O que eu escrevera parecia o trabalho de outro homem. Um homem mais eloquente. Um homem que sentia mais.
Com um esforço titânico, forcei-me a um último ato de registo. O essencial. O mais puro.
Vim de Portugal. Missão de cartografia. Encontrei uma cidade. O nome... Nimbosa.
Chove sempre. As pessoas... quietas. Há uma torre. Um velho. Uma flor.
A minha mão parou. Senti uma estranha paz a invadir-me. Por que me esforçava tanto? Que importava tudo aquilo? A dor da lembrança era aguda, uma ponta de ferro em brasa na minha mente. A promessa da Chuva, a promessa de um céu cinzento e vazio na alma, era suave, era boa.
Com a mão a tremer menos, escrevi as últimas palavras que esta crônica conhecerá.
Vim. Vi. A cidade chove.
Larguei a pena. Ela rolou da mesa e caiu no chão com um baque surdo, que mal registei. Olhei para fora, pela vigia da cabine. O nevoeiro começava a envolver-nos de novo. Um véu branco e compassivo.
Quando subi ao convés, o Argos já se encontrava no abraço leitoso do nevoeiro. A cidade de Nimbosa desaparecera, como se nunca tivesse existido. A chuva, a chuva daquele lugar, cessara, substituída por um chuvisco fino do oceano, seu primo selvagem e sem propósito. Meus homens moviam-se em silêncio, lançando-me olhares de soslaio, plenos de preocupação.
Gaspar, o meu imediato, um homem de rosto curtido pelo sal e de certezas simples, aproximou-se de mim. A sua presença era um pedaço do mundo que eu deixara para trás. Um mundo de rumos e destinos.
”Capitão? Estais melhor?”A sua voz era uma rocha de bom senso. ”As ordens... mantemos o rumo para o leste? Rumo a Lisboa? Rumo a casa?”
Casa. Lisboa. As palavras eram como nomes de estrelas mortas. Eu sabia o que significavam, como um erudito sabe o nome de um deus esquecido, mas não sentia o seu calor, a sua força de atração. Olhei para as minhas mãos, pousadas na amurada. As mãos de um cartógrafo. Mãos que haviam traçado mapas, que haviam segurado instrumentos de precisão. Pareciam-me as mãos de um estranho.
O nevoeiro envolvia-nos por completo. Não havia horizonte, nem céu, nem mar. Apenas o cinzento. Apenas o navio, suspenso no nada. E a água a cair.
Gaspar esperava, paciente. Esperava uma ordem, uma direção, um propósito. O que um capitão deve dar.
Virei-me para ele, lentamente. O meu rosto estava calmo. Procurei dentro de mim a resposta, a ordem, o caminho de volta. Vasculhei os corredores de minha mente em busca do fogo da ambição, da saudade do lar, do orgulho do dever cumprido. Encontrei apenas ecos. E um vasto, imenso, e pacífico silêncio.
Abri a boca, e a voz que saiu era a minha, mas era outra. Era a voz de um homem que vira a verdade no fundo de um poço e que se deixara ficar por lá. Era uma voz queda, despojada de toda a paixão.
Gaspar inclinou-se para ouvir melhor, os seus olhos cheios de uma lealdade que me partia o que restava do coração. ”O rumo, Capitão?”
O meu olhar passou por ele, pelo mastro, pelo nevoeiro. O mundo reduzira-se a uma verdade simples e inescapável. A única verdade que restava. A única filosofia. A única direção.
E eu disse a única palavra que importava. A única resposta para todas as perguntas.
”Chove.”
Adendo ao Diário do Capitão Caetano de Almeida
Anexo encontrado junto ao códice principal, escrito em letra firme, porém rude, sobre uma folha de mapa náutico. Presume-se ser da autoria do primeiro-imediato Gaspar Nunes. A caligrafia inicia-se de forma clara e funcional, mas torna-se progressivamente mais ornamentada e errática.
No Ano da Graça de 1789, no porto de Lisboa.
Eu, Gaspar Nunes, que fui o imediato do Capitão Caetano de Almeida, sinto por dever de ofício e por lealdade à memória de quem ele foi, a necessidade de acrescentar estas linhas. Regressámos a Lisboa. O corpo do Argos atracou no Tejo, mas a alma do seu capitão ficou para sempre ancorada naquela baía de névoa.
Tento usar as minhas palavras, as palavras de um homem do mar, mas as palavras dele, as do Capitão, misturam-se às minhas como a tinta se mistura à água. É difícil separar as coisas. Ele, nos seus últimos dias a bordo, não estava louco, como a tripulação murmurava. A loucura é um ruído, uma tempestade na alma. O Capitão era o oposto. Era silêncio. Um silêncio de pedra, uma catedral de ausência onde apenas ele parecia poder rezar.
Quando lhe perguntei o rumo, e ele respondeu ”Chove”, não foi um delírio. Agora compreendo. Foi a resposta mais lúcida que um homem poderia dar. Que importa o Leste ou o Oeste, que importa um porto, quando se descobre que a viagem é a única coisa que existe, e que o destino é apenas a dissolução? O seu olhar não era vazio, como escrevi antes... não, não fui eu que escrevi antes. Este é o único relato. O seu olhar era cheio. Cheio de uma paz cinzenta e perfeita. Uma paz que nós, os sãos, com as nossas febres de esperança e saudade, não podemos compreender.
Guardo o seu diário. É a minha âncora àquilo que aconteceu. Leio-o todas as noites, para não me esquecer da sua coragem. E aqui reside o estranho. O perturbador. Por vezes, ao reler uma passagem, encontro nela uma frase que juro não ter lido na noite anterior. Uma anotação à margem, com uma letra que é quase a dele, e quase a minha.
Ontem, na última página, onde ele escrevera ”Vim. Vi. A cidade chove.”, apareceu, por baixo, uma nova linha:
”E a chuva viu-me a mim.”
Não fui eu que a escrevi. Juro pela salvação de minha alma.
Entreguei o Capitão à sua família. Eles veem um corpo vazio que olha a chuva. Eu vejo um profeta que encontrou o seu deus. Um deus que não exige sacrifícios de sangue, apenas de memória. E pergunto-me, nas longas noites de Lisboa, se o dom que ele nos trouxe não foi um aviso, mas uma oferta.
O mundo está doente de memória. Sofremos por coisas que já passaram, tememos coisas que não vieram. Vivemos acorrentados a nomes, a rostos, a juramentos. Nimbosa... Nimbosa não é uma cidade. É uma cura. Uma ablução final.
Escrevo isto para corrigir o registo. Para que, se alguém encontrar estes escritos, não veja a história de uma tragédia, mas de uma transfiguração. O Capitão não se perdeu. Ele encontrou o único porto verdadeiro.
A pena treme em minha mão. Ou não é a minha mão? Vejo-a, segura a pena, e por um instante, parece-me longa e fina, a mão de um erudito, não a pata grossa de um marinheiro. A mancha de tinta que deixo no papel parece o contorno de uma gárgula.
O céu de Lisboa está a nublar-se. Que bom.
Começa a chover.