Nimbosa Rediviva

Prólogo

Reza a crônica que, nos anos que se seguiram ao malfadado regresso do Capitão Caetano de Almeida, uma estranha névoa, não de água, mas de espírito, começou a descer sobre certos salões e gabinetes de Lisboa. Corria o ano da Graça de 1792. O império português, embora já saudoso de glórias passadas, ainda era uma criatura de sol, de vento e de ambição, uma nação cuja alma se forjara na proa das caravelas e na febre do ouro e da fé. E foi precisamente nesta alma que a nova doença escolheu aninhar-se.

O foco da infeção era um objeto: um códice de couro manchado pelo sal, guardado a sete chaves na Torre do Tombo. As ”Crônicas da Cidade Nimbosa”. O diário do Capitão, que fora inicialmente recebido como o delírio de um homem quebrado pelo mar, tornara-se, para a elite intelectual do reino, um artefacto de fascínio proibido. Cartógrafos, filósofos, teólogos e poetas obtinham licença para o estudar, buscando nele a chave para uma geografia da alma ou uma nova metáfora para a melancolia. E era ao saírem da torre, após dias debruçados sobre aquelas páginas de tinta instável, que os primeiros sintomas se manifestavam.

Chamaram-lhe o ”mal cinzento”. Não era uma febre que consumisse o corpo, mas um frio que se instalava na vontade. Um célebre cartógrafo da marinha, que sonhara toda a vida com as ilhas desconhecidas do Pacífico, declarou subitamente que os mapas existentes eram suficientes e que a ânsia de descobrir era uma vaidade infantil. Um poeta, famoso pela veemência de seus sonetos de amor, abandonou a pena, confessando a um amigo que a beleza lhe parecia agora ”demasiado ruidosa”. Estadistas, cujas intrigas e ambições mantinham em movimento as engrenagens do poder, eram vistos a olhar a chuva pela janela por horas a fio, indiferentes a conspirações e a favores reais, como se a grande roda do mundo se tivesse tornado, para eles, um espetáculo fútil.

Não se tornavam loucos. Pelo contrário, tornavam-se de uma sanidade terrível. A sua lógica ficava intacta, mas era agora aplicada ao desmantelamento de suas próprias paixões. Argumentavam com uma clareza desoladora sobre a inutilidade do esforço, a superioridade do silêncio, a paz que reside na ausência de desejo. O mal cinzento não destruía a razão; cooptava-a. Era um contágio pela palavra, uma heresia que se lia e que, uma vez lida, reescrevia a alma do leitor. Era a filosofia de Nimbosa, vazando das páginas do diário como um miasma, e provando ser mais forte que a filosofia do império.

O alarme soou em dois palácios: no Paço da Ribeira, onde a Coroa via a ambição, motor do império, a ser sangrada até à morte; e no Palácio Patriarcal, onde a Igreja via uma praga espiritual, uma forma de acédia tão profunda que se assemelhava a uma renúncia à alma que Deus dera aos homens para que lutassem e sentissem. Uma coisa era a apatia de um capitão louco; outra, bem diferente, era a mesma apatia a florescer, fria e racional, no coração dos homens que governavam o reino.

Nimbosa, a cidade-fantasma, deixara de ser uma curiosidade geográfica. Tornara-se uma ameaça existencial.

Numa reunião secreta, com o chão forrado a mapas e a mesa coberta de relatórios teológicos, a decisão foi tomada. Não se podia queimar o livro, pois a ideia já estava solta. Não se podia ignorar a fonte. Era preciso regressar a Nimbosa. Mas desta vez, não com a curiosidade de um só homem, mas com a força combinada dos dois pilares do reino. Uma expedição, não de descoberta, mas de soberania. Uma missão para confrontar a anomalia, para a compreender e, se Deus assim permitisse, para a curar. Ou para a destruir.

Foi assim que, numa manhã de outono, três homens foram convocados ao Paço e receberam um pergaminho selado com o sinete real e a cruz patriarcal. A sua comissão estava formalizada na carta que se segue.

Pela graça de Deus, eu, Maria I, Rainha de Portugal e dos Algarves,

e em santa concordância com o Cardeal Patriarca de Lisboa,

A vós, Capitão de Mar e Guerra Diogo Faria e Távora,

A vós, Mestre Elias de Mendonça, Físico e Filósofo Natural,

E a vós, Padre Simão Velho, da Companhia de Jesus,

Saúde.

Ficais por esta cientes de que uma sombra, nascida dos relatos trazidos do mar ocidental pelo Capitão Caetano de Almeida, se estende sobre o espírito de nossos mais leais súditos. Uma filosofia de quietude e desapego, contrária à Fé que nos guia e à Coroa que nos move, emana de sua crônica como um veneno para a vontade.

Esta anomalia, a que o dito Capitão deu o nome de Nimbosa, não pode mais ser tratada como uma fábula de marinheiro, mas como uma questão de Estado e uma urgência da alma.

Pelo que, ordenamos e comissionamos a vós, homens de provada lealdade e saber, que prepareis uma frota e vos façais ao mar com o rumo traçado pelo malogrado Almeida. A vossa missão não é a de meramente observar, mas a de reclamar, purificar e, se necessário, subjugar o dito lugar e o fenómeno que o governa.

Ao Capitão Diogo, confiamos a força das armas e a ordem da Coroa, para que estabeleça o nosso estandarte e garanta a segurança da empresa.

Ao Mestre Elias, confiamos a luz da Razão e da Ciência, para que disseque a natureza desta praga, seja ela da água, do ar ou da terra.

E ao Padre Simão, confiamos a autoridade da Santa Madre Igreja, para que sonde a natureza espiritual do mal, para que traga a luz do Evangelho às almas que lá se encontrem e para que exerça o sagrado ofício de exorcizar as sombras que se opõem à obra de Deus.

Levais convosco famílias de colonos, gente rija e temente a Deus, para que a semente da nossa civilização seja plantada naquela terra estéril. Sois a um só tempo uma expedição militar, científica e missionária.

Ide, e que o Deus dos Exércitos vos guie. Trazei de volta a cura para esta sombra, ou assegurai-vos de que a sua fonte seja para sempre selada das terras dos homens. O vosso sucesso ou fracasso não será medido em léguas ou em ouro, mas na própria fibra da alma de nosso Reino.

Cumpra-se.

Dado no Paço da Ribeira, aos vinte e nove dias de Setembro do ano de Nosso Senhor de 1792.

RAINHA MARIA I

(Com o selo do Cardeal Patriarca)

Ato I

Relatório de Simão Velho, da Companhia de Jesus, endereçado a Sua Eminência o Cardeal Patriarca de Lisboa. Folha Primeira. Datado do décimo dia de Maio do ano da Graça de 1793.

Aproximámo-nos ao romper da aurora. Não de uma aurora de luz, mas de uma mera diminuição das trevas. A muralha de névoa, que a crônica do Capitão Almeida descrevera com assombro poético, revelou-se aos nossos olhos não como um mistério, mas como uma fronteira. Uma demarcação entre o mundo que pertence a Deus e uma anomalia que Lhe virou as costas. A nossa frota, composta por três naus de guerra e duas caravelas de colonos, não pediu passagem. Impusemo-la. As proas dos nossos navios rasgaram o véu com a arrogância do aço, e a bruma recuou, não como um pano que se ergue, mas como uma lepra que se retrai perante o ferro cirúrgico. E então, Nimbosa revelou-se.

Da amurada, observei-a com a atenção de um médico a examinar um corpo enfermo. Almeida vira nela uma beleza tumular; eu via apenas a perfeição da heresia. Uma cidade que alcançara a paz através da renúncia à alma é uma blasfémia construída em pedra. O seu silêncio não era o silêncio reverente de um mosteiro, mas o vácuo que precede a danação final. A sua chuva incessante, que Almeida poetizara, pareceu-me um batismo invertido, um sacramento profano que não lava o pecado, mas a própria essência que Deus insuflou em Adão.

Esta é uma cidade que, em sua arquitetura e em sua atmosfera, nega o Verbo. Pois o Verbo é criação, é distinção, é nomeação, e este lugar é a apoteose da indiferenciação e do silêncio.

Ao meu lado no castelo de proa, os meus dois companheiros de triunvirato observavam a mesma cena, mas viam mundos distintos. O Capitão Diogo, um homem de aço e ângulos retos, via uma praça-forte a ser tomada, um problema de tática e de disciplina. O seu queixo estava erguido, os seus olhos a medir as ameias e a largura dos canais, calculando já onde postar a artilharia. Ao seu lado, Mestre Elias, de rosto pálido e mãos finas, via um fenómeno a ser dissecado. Trazia já ao peito uma bolsa com frascos e instrumentos, e os seus olhos não viam torres, mas amostras de pedra; não viam canais, mas amostras de água. Buscava a doença no corpo do mundo, recusando-se a admitir que ela pudesse residir no espírito.

E eu, vosso servo, via a minha paróquia. A mais estranha e terrível paróquia que algum missionário já enfrentou. Uma diocese de almas em suspenso, um rebanho perdido não para o pecado da paixão, mas para o pecado ainda mais profundo da ausência.

As âncoras caíram nas águas escuras com um estrondo que foi a primeira ofensa, o primeiro grito de vida naquele silêncio de séculos. A nossa missão começara. Não viemos descobrir Nimbosa. Viemos corrigi-la. Que Deus, em Sua infinita misericórdia, nos perdoe a soberba e nos dê a força para não nos perdermos na paz que viemos destruir.

* * *

O desembarque foi um ato de ordem imposto ao caos do silêncio. O Capitão Diogo foi o primeiro a pisar em terra, e fê-lo com a bota a ressoar na pedra, como quem toma posse. Em menos de uma hora, a sua vontade era lei. Os soldados, em formação, estabeleceram um perímetro em redor da praça da catedral, a que Diogo rebatizou de ”Praça das Armas”. Paliçadas foram erguidas. Sentinelas postadas em cada ponte. O som das ordens secas e dos martelos a cravar estacas era uma violência contra a quietude do lugar. Diogo pretendia enjaular o vazio, acreditando que a disciplina militar poderia, por si só, exorcizar a apatia.

Mestre Elias, por sua vez, ignorou por completo a estrutura militar. Mal desembarcou, iniciou a sua febril colheita. Raspava o limo das paredes para pequenos sacos de couro, enchia frascos com a água da chuva e a água dos canais, media a densidade do ar com um barómetro de mercúrio. Murmurava para si mesmo sobre ”influências telúricas”e ”vapores patogénicos”. Para ele, a alma de Nimbosa era uma equação química à espera de ser resolvida. Observava os habitantes nativos não como homens, mas como espécimes em seu habitat, anotando a sua palidez, a lentidão de seus gestos, como um naturalista a catalogar uma nova espécie de lesma.

E eu caminhei. Deixei para trás a ordem da paliçada e a pressa da ciência e caminhei pelas vielas húmidas. Procurei o contacto, o confronto. Aproximei-me de um barqueiro, imóvel em sua gôndola, e fiz sobre ele o sinal da cruz, proferindo a bênção em latim. Ele piscou, lentamente, como uma rã, e o seu olhar atravessou-me sem me ver. Aproximei-me de uma mulher no mercado, que trocava um peixe por um naco de pão, e perguntei-lhe em nome de quem fazia aquela troca. Ela olhou para o pão, depois para o peixe, e afastou-se, a transação sendo a sua única e completa resposta.

Eles não são hostis. Nem sequer são indiferentes, pois a indiferença implica uma escolha de não se importar. Eles simplesmente não registam. A alma, a que a teologia chama de espelho de Deus, é neles uma superfície de água turva onde nada se reflete. São uma paróquia de ecos, homens e mulheres ocos, cujas vidas se resumem ao cumprimento de funções cujo propósito original se perdeu.

Ao fim do dia, reunimo-nos na tenda de comando. Diogo relatou que a praça estava segura e a disciplina, imposta. Elias relatou que as suas amostras eram promissoras em sua estranheza. E eu relatei que encontrara um deserto de almas mais vasto e mais terrível que qualquer deserto de areia. Três homens, três métodos, três fés. E a cidade, em seu silêncio, observava-nos, esperando para ver qual de nós se quebraria primeiro.

* * *

Por vários dias, a nossa comunidade impôs a sua vontade à cidade. O ruído do nosso quotidiano – o choro das crianças dos colonos, as cantorias dos soldados, o ranger das serras a cortar madeira nova – enchia o ar. Havia uma esperança tácita, uma fé ingénua de que a nossa simples presença, a nossa vitalidade, seria um antídoto. Acreditávamos que a comunidade, por si só, era uma muralha contra a letargia de Nimbosa.

A muralha ruiu ao oitavo dia.

O homem chamava-se Afonso. Um carpinteiro algarvio, jovem e forte, de riso fácil, que deixara em terra uma noiva e a promessa de construir-lhe uma casa com o soldo desta empresa. Era a própria imagem da vida que viéramos aqui plantar. O Capitão Diogo encarregou-o de uma tarefa solitária: a reparação de uma pequena ponte de madeira que ficava nos limites do nosso acampamento, um pouco mais isolada.

Afonso partiu pela manhã, com as suas ferramentas ao ombro, a assobiar uma cantiga da sua terra. O som do seu martelo, rítmico e seguro, foi o nosso companheiro durante a tarde. Depois, silêncio. Não regressou para a refeição do anochecer.

Formámos uma patrulha de busca ao crepúsculo. Fui com eles, o coração já prenhe de um temor que não ousava nomear. Encontrámo-lo junto à ponte. A obra estava a meio. As ferramentas jaziam no chão, caídas de qualquer maneira. Afonso estava de pé, imóvel, na beira do canal. O seu martelo ainda pendia de sua mão direita, inerte. Ele não olhava para nada em particular. Olhava para a chuva. Observava, com uma atenção absoluta e vazia, as gotas a pontilharem a superfície escura da água.

”Afonso!”, chamou o sargento.

Ele não se moveu. Aproximei-me e toquei-lhe no ombro. Virou a cabeça para mim, e o movimento foi lento, desarticulado, como o de uma marioneta. E nos seus olhos, vi-o. O verniz do vazio. O mesmo olhar estagnado dos nativos. A luz da sua alma, o fogo algarvio, a saudade da noiva... tudo se apagara.

”Afonso, filho, estás bem?”, perguntei, a voz um fio.

Ele olhou para a minha mão em seu ombro, depois para mim. Os seus lábios moveram-se. ”Estou,”disse ele, a voz um murmúrio monocórdico. ”O trabalho... parou.”Depois, o seu olhar voltou para a água. ”Chove.”

Um calafrio percorreu a espinha de todos os homens presentes. Trouxemo-lo de volta ao acampamento, ele a caminhar entre nós, dócil e estranho como um animal domesticado. Os outros colonos recuavam ao vê-lo passar, as mulheres benziam-se. O contágio era real.

Naquela noite, na solidão da minha tenda, compreendi o nosso erro fundamental. A comunidade não é um escudo passivo. A fé não é uma armadura que se veste. Contra Nimbosa, elas têm de ser armas ativas. Não basta estarmos juntos; temos de nos vigiar uns aos outros, a cada instante. Temos de nos agarrar uns aos outros para não sermos levados pela correnteza do silêncio. Para cada homem, tem de haver outro pronto para o reerguer da beira do abismo. Cada um de nós tem de ser o ”erguedor”de seu irmão.

A nossa missão de reconquista acabara de se tornar uma desesperada luta pela nossa própria sobrevivência espiritual. A primeira alma fora reclamada. E eu sabia, com uma certeza terrível, que não seria a última.

Ato II

Relatório de Simão Velho. Folha Quarta. Passado mais de um mês desde a nossa chegada.

As semanas que se seguiram à queda de Afonso, o carpinteiro, foram marcadas por uma febre de atividade imposta. O Capitão Diogo, homem para quem toda a desordem é uma forma de insubordinação, redobrou a sua fé na única escritura que conhecia: a da disciplina militar. Decretou que o ócio era o nosso inimigo primordial, o caldo onde o miasma de Nimbosa se cultivava. A vida na Praça das Armas tornou-se uma liturgia marcial. Os dias eram cortados pelo som da corneta: alvorada, formatura, exercícios de armas, patrulhas obrigatórias, trabalhos forçados. Os colonos, que vieram para semear a terra, viram-se obrigados a marchar em parada, e os soldados, que vieram para lutar, foram postos a construir muros desnecessários. Diogo acreditava que podia cansar o corpo para manter a alma desperta. Uma lógica de ferro contra um inimigo de vapor.

Mas a ferrugem, aqui, não vem da água, mas do espírito. E começou a alastrar. O primeiro sinal deu-se numa noite de sentinela. Um soldado, postado na ponte mais distante, foi encontrado não a dormir — o que seria uma falta compreensível —, mas sentado no parapeito, a arma pousada ao lado, a observar o correr da água do canal com uma atenção desprovida de pensamento. Quando interpelado, não mostrou medo nem vergonha, apenas uma lassidão imensa, como se o esforço de se manter de pé em vigília se lhe tivesse afigurado, subitamente, como um absurdo colossal.

Depois, foram os exercícios. Onde antes havia o estalo seco dos mosquetes a alinharem-se em uníssono, havia agora uma cacofonia de movimentos dessincronizados. Os homens moviam-se como em sonho, as suas ações eram ecos de ações, os seus gritos de guerra, murmúrios. Não era rebelião. Era algo pior: uma evaporação da vontade. A espada do Capitão Diogo, a sua fé na ordem, começava a enferrujar por dentro.

Confrontei-o na sua tenda, sobre um mapa da cidade que ele teimava em tratar como um campo de batalha. Ele falava em castigos, em aumentar a severidade dos treinos. Tentei, com a paciência que a minha Ordem me ensinou, explicar-lhe. ”Capitão,”disse eu, ”o senhor tenta esgotar um mar com um balde. O inimigo não é a preguiça, é o vazio. É o pecado da acedia elevado a uma lei da natureza. Como se castiga um homem por se esquecer do desejo de viver?”

Ele olhou-me com a fúria impotente de um leão a morder uma sombra. Naquele momento, vi que a sua força, o pilar secular de nossa expedição, se erguia sobre areia.

* * *

Se a espada de Diogo se cobria de ferrugem, o escalpelo de Mestre Elias encontrava apenas a carne sã. O nosso filósofo natural, o bastião da Razão, barricara-se numa das casas de pedra, que transformara num laboratório. Passava os dias e as noites entre alambiques, microscópios e balanças de precisão, numa busca febril pela causa física do ”mal cinzento”.

Enquanto a fé de Diogo se esboroava em público, a de Elias corroía-se em silêncio. Eu visitava-o amiúde, e encontrava-o cada vez mais pálido, mais magro, os seus olhos cercados por uma sombra de frustração. As suas paredes estavam cobertas de cartas e tabelas que, em vez de revelarem um padrão, gritavam a sua ausência.

O seu tormento atingiu o clímax numa noite de chuva mais forte. Ele irrompeu pela tenda de comando, onde eu e Diogo discutíamos a rotação das vigílias, e atirou sobre a mesa um maço de papéis. A sua voz era a de um homem que vira um fantasma.

”Nada,”disse ele, a palavra a sair como um sopro. ”Absolutamente nada.”

Por semanas, ele analisara tudo. A água da chuva era pura, mais pura que a de qualquer fonte de Lisboa. A água dos canais continha apenas os sedimentos esperados. A pedra era granito comum. O ar... o ar era apenas ar. Não havia pólen, não havia esporos, não havia vapores ou emanações do solo. A sua ciência, metódica e exaustiva, produzira um resultado único e terrível: o lugar era perfeitamente normal.

”Pela lógica irrefutável da matéria,”disse Elias, os olhos a arder de uma febre fria, ”não há qualquer agente patogénico externo. Não há veneno, não há miasma, não há anomalia. Portanto,”e aqui a sua voz quebrou-se, ”a anormalidade... a doença... tem de residir em nós. É algo que trazemos connosco e que este lugar apenas ativa ou revela.”

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer pedra. A Razão, o grande farol da nossa era, acabava de confessar a sua cegueira. Elias, ao tentar dissecar o mistério, apenas provara que o mistério não tinha corpo. E ao fazê-lo, voltara o escalpelo para a nossa própria alma, o único lugar que a sua ciência não podia alcançar.

* * *

Enquanto os nossos sistemas de ordem e de conhecimento se desintegravam, a própria cidade começou a reagir. Os nimbosanos, que até então nos haviam tolerado com a sua indiferença de sonâmbulos, iniciaram uma forma de resistência tão subtil e tão devastadora quanto a própria chuva: o protesto do vazio.

A nossa presença era uma dissonância insuportável na sua sinfonia de silêncio. O choro do filho do ferreiro, as discussões dos colonos por causa de rações, o som de um cântico religioso que eu tentava ensinar... tudo isto eram agressões à sua paz. A vida que trouxéramos era, para eles, um ruído obsceno a profanar o seu templo.

E então, a máquina parou. Não por ordem, não por conspiração, mas por um instinto coletivo, como um cardume que muda de direção. O barqueiro que transportava as nossas provisões de um lado ao outro da praça simplesmente não apareceu. Encontrámo-lo sentado na sua barca, a olhar para as mãos, como se tivesse esquecido a função do remo. As poucas vendedoras do mercado não repuseram as suas bancas. As pedras ficaram nuas. Os homens que mantinham os canais desobstruídos de detritos, quedaram-se em suas casas.

A cidade, cuja funcionalidade perfeita nós tínhamos parasitado, cruzou os braços. E nós, subitamente, ficámos ilhados em nossa própria desordem. A nossa comunidade, barulhenta e cheia de vida, dependia daquela infraestrutura silenciosa. O Capitão Diogo enfureceu-se, ameaçou-os com armas. Eles olharam para as pontas das espadas com a mesma curiosidade baça com que olhavam para a chuva. Não havia medo a explorar, não havia vontade a quebrar.

Compreendi, então, a natureza daquela paz. Não era robusta. Era uma estufa de vidro, delicada e perfeita, que dependia de um equilíbrio absoluto. Nós éramos a pedra que viera estilhaçar o vidro. E a reação da cidade não era hostil. Era a reação de um organismo a rejeitar um órgão estranho, encerrando as suas funções vitais para isolar o corpo invasor. O seu silêncio tornara-se uma arma, e a sua inércia, uma barricada intransponível.

* * *

A espada enferrujada. A ciência cega. A cidade em greve. Os pilares de nossa expedição haviam ruído. Os colonos estavam assustados, os soldados, apáticos. Eu mesmo, vosso servo, sentia a minha fé a ser lixada por aquela chuva de dúvidas. As minhas orações pareciam palavras ocas lançadas contra uma parede de algodão. Como se reza por almas que não existem? Como se oferece a salvação a quem não conhece o conceito de perdição?

No meu desespero, restava-me uma única e frágil esperança, um último fio de Ariadne no labirinto: o relato de Caetano Almeida. A sua crônica, que nos adoecera em Lisboa, poderia conter a chave da cura aqui, na fonte. E o coração de sua narrativa era a Torre e o seu Guardião.

Deixei o acampamento ao amanhecer, sem nada dizer a ninguém. A minha ida à torre não era um ato de exploração, mas uma peregrinação. Eu não buscava um homem, mas um adversário, um anjo ou um demónio, algo a que pudesse dar um nome, algo contra o qual pudesse esgrimir a minha fé.

A subida pela escadaria em espiral foi uma subida pelas minhas próprias dúvidas. A cada degrau, eu rezava, pedindo um sinal, uma revelação. Cheguei por fim à câmara circular, o coração a bater descompassado, e encontrei... o nada.

A sala que Caetano descrevera como um santuário de saber era agora uma tumba de pó. As teias de aranha cobriam os livros como mortalhas. O grande mecanismo de bronze no centro da sala estava enguiçado, os seus anéis cobertos de uma camada de óxido verde, como o zinabre nas estátuas da praça. E na janela, na pequena floreira, restava apenas o caule enegrecido e seco da flor carmesim.

O Guardião não estava lá. Não havia sinal de que alguém ali tivesse vivido nos últimos anos. Sentei-me no chão poeirento, e o peso daquele silêncio esmagou-me. Todas as minhas teorias, todas as minhas certezas, desfizeram-se. Teria Caetano mentido? Teria ele, em sua solidão, alucinado aquele encontro, projetando a sua necessidade de um sentido num velho louco ou num fantasma? Ou teria o Guardião, a âncora viva da memória, simplesmente... partido? Ou, pior, teria ele finalmente cedido à paz da Chuva, dissolvendo-se no esquecimento como todos os outros?

A verdade atingiu-me com a força de um sacrilégio: o inimigo não tinha rosto. Não havia um rei-demónio a governar este inferno de apatia. Não havia um dragão a ser morto. Havia apenas o Vazio. E o Vazio não se combate com a espada, não se mede com a ciência e, talvez, nem mesmo se exorcize com a fé.

Desci daquela torre um homem diferente, despojado das minhas armas teológicas. A minha fé, antes uma fortaleza de dogmas, era agora uma pequena chama a tremer na vastidão de um deserto. Eu percebi que não podia lutar contra Nimbosa com os sistemas do nosso mundo. Para quebrar aquele silêncio, eu não precisava de um argumento ou de uma espada. Precisava de um milagre. Um som que a própria cidade não pudesse ignorar.

Ato III

Relatório de Simão Velho. Folha Oitava. No terceiro mês de nossa estadia, o mês que em nosso mundo chamamos de Julho.

O desespero, descobri, não é um abismo, mas um pântano. Após o fracasso de nossas fés—a fé de Diogo na Ordem, a de Elias na Razão e a minha na Palavra—, a expedição afundou-se numa rotina de lassidão. O sistema dos ”erguedores”, que eu concebera com tanta urgência, tornara-se um fardo exaustivo; éramos uma corrente de cegos a guiar outros cegos, partilhando entre nós uma vela de vontade que a cada dia se consumia mais. A vitória de Nimbosa parecia ser apenas uma questão de tempo, uma vitória por desgaste, a vitória de uma pedra contra a onda que nela se quebra até se cansar.

Estávamos a perder a guerra. E foi no momento de nossa mais profunda certeza da derrota que Deus, ou uma outra força igualmente inescrutável, moveu a Sua peça.

Aconteceu numa das casas de pedra junto à praça, que havíamos transformado em enfermaria. Helena, a jovem esposa do ferreiro, entrara em trabalho de parto. Era a primeira vida nova a querer brotar neste solo de morte. A comunidade inteira prendeu a respiração. O Capitão Diogo postou guardas à porta, não contra um inimigo, mas como um gesto de nervosa impotência. Mestre Elias, de mãos trémulas, preparava panos e água quente, a sua ciência reduzida ao ofício humilde de uma parteira. E eu rezava. Rezava não com as fórmulas da liturgia, mas com uma súplica selvagem e desesperada, pedindo não por uma alma nova, mas por um som novo.

As horas arrastaram-se. Dentro da casa, os gemidos de Helena eram sons abafados, quase engolidos pela presença maciça do silêncio da cidade lá fora. Parecia que a própria Nimbosa se opunha àquele nascimento, que a sua atmosfera de vácuo tentava sufocar a vida antes que ela pudesse respirar e gritar.

E então, no momento mais escuro que precede a alvorada, aconteceu. Um som. Um som que esta cidade esquecera. Não foi uma palavra, não foi uma melodia. Foi o som primordial. O som de pulmões a encherem-se de ar pela primeira vez e a protestarem contra o frio, a luz e a própria existência.

O primeiro choro.

Agudo, insistente, desesperado e absolutamente vivo. Rasgou o véu do silêncio como um punhal de som. Não era um pedido, era uma exigência. Uma declaração de vontade pura, despida de razão ou de fé. Era a afirmação biológica e irrefutável do ”Eu”, a heresia suprema num mundo construído sobre a negação do ser. Naquele instante, naquela pequena casa húmida, o Verbo fez-se carne e som, e todo o delicado e antigo equilíbrio de Nimbosa estremeceu até aos seus alicerces de pedra.

* * *

O eco do choro alastrou-se pela praça. Para os nossos, foi um sinal de alívio e de alegria. Homens e mulheres choraram e abraçaram-se. Uma vida nova. Uma esperança. Mas eu, de pé à porta da enfermaria, senti uma outra reação. Uma reação da própria cidade. Um arrepio na espinha do mundo.

E o milagre que eu pedira, o sinal que eu suplicara, manifestou-se da forma mais terrível. A Chuva, o metrónomo eterno de Nimbosa, a pulsação que media o tempo do esquecimento, falhou. O ritmo constante, imutável, que nos atormentara por meses, vacilou. As gotas espaçaram-se, tornaram-se irregulares, como as batidas de um coração a morrer. E então, pela primeira vez em séculos, talvez em milénios... parou.

O silêncio que se seguiu foi mil vezes mais profundo e mais ensurdecedor do que o silêncio da chuva. Era um silêncio de ausência, de expectativa, de algo que se quebrara irremediavelmente.

Durou talvez um minuto. E depois, a segunda heresia. Uma fenda abriu-se no dossel perpétuo de nuvens. Não se abriu com a glória de um sol de verão. Abriu-se como uma ferida. E por ela, um raio de luz pálida e amarelada desceu e tocou as pedras da praça. Não era a luz de Deus. Era uma luz doentia, inquisitorial. Uma chaga de luz num céu de cinza.

Pela primeira vez, Nimbosa conheceu a sombra. Os edifícios, antes homogéneos em seu cinzento, ganharam profundidade, ângulos duros, escuridões que não conhecíamos. A luz expôs a sujidade, o limo, a decadência com uma clareza cruel. Não era uma bênção. Era uma acusação. Era o olhar de um deus estranho e colérico a pousar sobre uma terra que vivera tanto tempo na sua própria e pacífica escuridão. O Deus-Chuva, a consciência da cidade, ferido pelo punhal do primeiro choro, sangrava luz sobre nós.

* * *

A reação ao prodígio foi dupla e diametralmente oposta. Os nossos colonos, ao verem a luz e sentirem o calor anémico do sol em seus rostos, gritaram de alegria. Ajoelharam-se na lama, ergueram os braços, choraram de gratidão. Viram naquilo a mão da Providência, a resposta às suas preces, o fim do seu exílio.

Mas os outros... os nimbosanos... para eles, a luz era o inferno.

Eu vi-os. Saíram de suas casas, não por curiosidade, mas como insetos expulsos de sua toca por uma fumigação. E a luz tocou-os. Eles recuaram, sibilando. Cobriram os rostos com as mãos, não para proteger os olhos, mas como se a luz os queimasse na alma. O anestésico que os mantivera num sono de séculos falhara. E o que veio a seguir foi a dor.

A dor pura, sem o filtro da memória ou da compreensão. A Grande Mágoa, o trauma original que os seus ancestrais tinham rogado à Chuva que lhes apagasse, voltava agora a jorrar, como sangue de uma chaga antiga que se reabria.

Uma mulher, no meio da praça, caiu de joelhos. O seu rosto, antes uma máscara de serena vacuidade, contorceu-se numa máscara de agonia. A sua boca abriu-se e dela saiu um som rouco, um gemido que se transformou num grito de uma dor tão pura que parecia impossível um corpo humano contê-la. Um homem olhou para as suas próprias mãos como se fossem serpentes, e recuou, tropeçando, o terror a florescer em seus olhos vazios. Eles não estavam a lembrar-se de eventos; estavam a lembrar-se do sentimento. Estavam a ser afogados na dor primordial que haviam trocado pela paz.

E a dor, como um animal encurralado, buscou um culpado. O seu sofrimento voltou-se para a única anomalia, para a fonte do ruído, para a origem da luz que os feria. Para nós.

Os seus rostos contorcidos de agonia viraram-se na nossa direção. A vacuidade deu lugar a um ódio nascido não da malícia, mas do puro terror de sentir. Eram como pacientes de um cirurgião que, a meio da operação, acordassem da anestesia e se voltassem contra o homem do bisturi.

Vi um deles, um homem de ombros largos, baixar-se e pegar numa pedra do chão. Depois outro. E mais outro. O seu torpor transformara-se numa fúria de sonâmbulos açoitados.

”Aos vossos postos!”, gritou a voz do Capitão Diogo, uma voz que reencontrara, subitamente, o seu propósito. ”Formar linha! Proteger os colonos!”

Os soldados, despertos de sua própria letargia pela iminência de uma violência que compreendiam, ergueram os mosquetes. E as duas hostes ficaram frente a frente, na luz doentia daquele sol impossível. De um lado, nós, os portadores da vida, da fé e da razão, confusos com a nossa vitória terrível. Do outro, eles, os recém-nascidos para a dor, uma maré de agonia ressuscitada, prontos a matar para poderem voltar a morrer em paz.

Eu, que tanto rezara por um milagre, estava no meio. O choro do recém-nascido ainda ecoava em meus ouvidos, mas agora misturava-se aos gemidos de uma cidade inteira a ser crucificada. Eu pedira um sinal de vida. E a vida, ao responder, revelara a sua face mais antiga: a da violência e da dor.

A primeira pedra sulcou o ar. O silêncio de Nimbosa estava morto. Começava o tempo dos gritos.

Ato IV

Relatório de Simão Velho. Folha Décima. Os dias que se seguiram ao despertar.

A guerra que se travou na praça de Nimbosa não foi como as guerras dos homens, por terra ou por honra. Foi uma guerra de estados de alma, uma contenda entre a agonia e a confusão. De um lado, os nimbosanos, um exército de recém-nascidos para o tormento, brandindo pedras e a sua própria dor como armas. Os seus gritos não eram de fúria, mas de um horror puro, o grito de quem acorda de um sono de séculos e se descobre nu num mundo de fogo.

Do outro lado, os soldados do Capitão Diogo, homens de gatilho e de ordem, para quem aquela explosão de sofrimento era apenas mais uma forma de insurreição bárbara. O primeiro mosquete disparou. O som, um trovão profano naquele lugar, foi seguido pelo baque surdo de um corpo a cair. E o feitiço da violência quebrou-se. O que se seguiu não foi uma batalha, foi uma subjugação. Um massacre de fantasmas.

Eu movia-me entre os dois fogos, a cruz erguida, a voz a clamar por uma misericórdia que nenhuma das partes podia compreender. Tentava proteger os colonos da fúria cega dos despertos, e tentava proteger os despertos da lógica fria dos nossos soldados. Fracassei em ambos. Vi almas que haviam conhecido a paz do vácuo serem trespassadas por balas de chumbo. Vi colonos, que vieram em busca de uma nova vida, serem derrubados pela fúria daqueles a quem julgávamos ter vindo salvar.

A contenda terminou não com uma rendição, mas com um colapso. O choque do regresso da dor, combinado com a violência física do nosso mundo, foi demasiado para os nimbosanos. Muitos, ao serem feridos, não lutavam, apenas se deitavam no chão com uma expressão de alívio, como se a morte fosse um regresso bem-vindo à paz que lhes roubáramos. Outros fugiram, embrenhando-se nas brumas para lá da cidade, buscando um silêncio que talvez já não existisse. Os que foram capturados... simplesmente pararam. Os seus corpos continuavam a respirar, mas o espírito, a frágil chama de dor que a luz do sol acendera, apagou-se. Morreram de sentir.

Ao fim do dia, a praça estava silenciosa outra vez. Mas era o silêncio feio da morte, não a paz limpa do esquecimento. Havíamos vencido. Havíamos conquistado a cidade pelo ruído, pela dor e pela pólvora. E enquanto os colonos acendiam fogueiras e cantavam hinos de uma vitória que não compreendiam, eu ajoelhei-me na lama ensanguentada e rezei pelo perdão de um pecado para o qual não encontrava nome.

* * *

Relatório de Simão Velho. Folha Vigésima Sétima. Passada uma década desde a Conquista.

Dez anos. Uma década é tempo suficiente para que uma ferida se torne cicatriz, para que um pecado se torne história. A nossa Vila da Redenção, como a rebatizámos na nossa arrogância, prospera. A chuva é agora apenas chuva, um visitante ocasional que lava o pó das ruas de terra que rasgámos onde antes corriam os canais silenciosos. Erguemos uma igreja, uma taverna, uma forja, uma prisão. Temos tudo o que uma cidade de homens deve ter.

Observo esta minha paróquia da janela da sacristia. Vejo o bulício. Ouve-se o regatear dos mercadores na praça, a praga de um carroceiro cujo eixo se partiu na lama, o riso estridente de mulheres a lavar roupa no novo poço público. Há vida. Há movimento. Tivemos sucesso.

Mas a pena de um jesuíta é treinada para cortar para além da superfície da pele, e o que eu vejo sob esta agitação é uma nova forma de vazio. A fé que professam é um hábito social, uma convenção a que se atende aos domingos por medo do vizinho, não de Deus. A ambição, que em Lisboa movia os homens a cruzar oceanos, aqui resume-se a desejar a terra do vizinho, a cobiçar a sua mulher, a lucrar uns réis a mais na venda do grão. O amor é um arranjo de conveniência, a paixão um fogo de palha que rapidamente se converte nas cinzas do tédio doméstico.

Eles não são felizes. São apenas ocupados. Preenchem as suas vidas com tanto ruído, com tanta tarefa e tanta pequena intriga, que não lhes sobra tempo para confrontar o silêncio que se instalou em suas almas. Não há aqui a paz terrível da antiga Nimbosa, mas também não há a busca gloriosa da antiga Alúria. O que criámos foi um purgatório da mediocridade, um limbo da banalidade.

Nós não trouxemos a vida a Nimbosa. Apenas lhe ensinámos uma forma mais lenta e mais ruidosa de morrer.

* * *

Esta é a minha última entrada. A minha mão está velha, a minha tinta, no fim. O meu relatório à Coroa e à Igreja nunca será enviado. Seria um veneno para eles, como o diário de Almeida o foi para nós. Que estas palavras fiquem aqui, neste lugar que elas descrevem, como o epitáfio de dois mundos.

Esta noite, tive uma epifania final. Uma revelação que me gelou o sangue, mas que, paradoxalmente, deu sentido a tudo. Lembrei-me da Torre Vazia. Por anos, pensei que o Guardião fora uma fantasia de Caetano. Que erro. Que cega e arrogante presunção.

O Guardião foi real. E agora, só agora, compreendo a sua verdadeira natureza e a sua vigília. Ele não era o guardião de uma dor, mas o carcereiro da condição humana. A Grande Mágoa, que ele guardava, não fora um acidente da história, uma guerra ou uma praga. Fora a consequência inevitável. Fora o ponto final a que a paixão, a ambição, o amor e o ódio – a totalidade da experiência humana – sempre conduzem: a uma dor tão insuportável que a própria existência se torna um erro.

A Chuva não fora uma cura. Fora a sentença. Fora o reconhecimento lógico e trágico de que a única salvação para a febre da vida é o coma induzido do esquecimento. O sacrifício do Guardião não era manter viva uma memória, mas impedir que a doença da vida voltasse a brotar.

E nós? Nós fomos a praga que escapou. Nós chegámos com a nossa soberba, quebramos o selo daquela quarentena sagrada e chamamos a isso de milagre.

Olho pela janela para a minha Vila da Redenção. Vejo os rostos dos meus paroquianos, iluminados pela luz das velas e das lamparinas. Vejo a sua busca incessante por lucro, por prazer, por estatuto. Vejo a sua ansiedade, a sua inveja, o seu medo da morte. Eles não são livres. São escravos de mil desejos mesquinhos. As suas almas são tão vazias quanto as dos antigos nimbosanos. Mas eles alcançaram esse vazio não através de uma única e grandiosa escolha trágica, mas através de um milhão de pequenas e patéticas renúncias diárias.

Esta é a verdade final de Nimbosa. O seu horror não era o esquecimento, mas a lucidez da sua escolha. O horror do nosso mundo é a inconsciência com que chegamos ao mesmo destino.

Nós não derrotámos Nimbosa. Nós vulgarizámo-la. Reconstruímo-la sem a sua honestidade, sem a sua pureza terrível. Demos-lhe nomes, demos-lhe ruído, demos-lhe pecado. Mas no fundo, a cidade é a mesma, porque o vazio que a definia não estava na chuva. Estava na alma humana, à espera que o barulho parasse para se revelar.

O antigo morador de Nimbosa e o novo colono da Redenção chegarão ambos ao fim da vida com a alma oca. Mas o primeiro chegará em paz, como um rio que desagua no mar. O segundo, chegará exausto, como um rato que morre de cansaço na sua roda.

E essa, creio, é a maior de todas as condenações.