Minhas Frases
Consortium DoctrinaeAqui colocarei rascunhos e frases que fiz enquanto escrevia os poemas, contos e outros.
Não arbitrárias as palavras, não ao acaso,
Mas convencionais sim, e por leis ordenadas,
Da essência mesma das coisas, que no espaço
Se movem e pelas virtudes se veem elevadas.
Mas como dar forma ao que informe se mostra?
Como fixar no tempo o que é tão fugaz?
O nome que à coisa um sentido empresta,
Convém que revele em si essência
Se os nomes se prendem às coisas, qual laço
Indissolúvel, que os une eternamente,
Ou se os inventa o homem e em seu regaço
Guarda em segredos os mais, de voz latente?
Mas se à verdade as letras se ligavam,
Quem a palavra unida separou?
E se por nome a essência se eternizava,
Na Babel desfeita, a torre onde estava
O eco dos que em vão a Deus falavam?
Aceitava o Mistério insondabil,
O Verbo feito carne, a Cruz erguida;
Da Santa Madre Igreja o sacro ovil
Era seu porto, a bússola na vida.
Na missa estava, em gesto senhoril,
Ouvia a prédica, à razão rendida;
Mas no sacrário, onde o Nume se expunha,
Sua alma, imbele, não sentia Vontade alguma.
Ó alma humana, tu que choras no silêncio do teu quarto, quando todos dormem e ninguém vê. Tu que sentes que há algo que falta — mesmo cercada de prazeres, de vozes, de luzes — e não sabes nomear o vazio. Escuta, pois, não a voz de um mestre, mas o eco da tua própria dor, que é, em si, a mais irrefutável das provas.
Que nome dar a este vácuo que te assalta no meio dos festins? A esta sede que nenhuma fonte terrena mitiga? Chamas-lhe melancolia, tédio, angústia; dás-lhe os nomes que a filosofia te ensina ou que a poesia te murmura. Mas inquiriste já a natureza dessa falta? Não é, pois, a ausência de algo que te aflige, mas a presença de uma ausência; não o nada, mas a impronta, a forma negativa de um Ser que em ti se moldou e de quem te sentes órfã.
Observa o teu próprio ser. Corres atrás do aplauso, e, ao recebê-lo, sentes o seu som oco. Acumulas saberes, e, no cume da ciência, descobres um abismo de ignorância. Buscas o amor nos braços de outra criatura, e, no mais terno dos amplexos, uma insofreável soledade te invade. Por quê? Porque em cada um desses bens finitos buscas, sem o saber, um Bem Infinito. Em cada amor passageiro, procuras o Amor Perene. Em cada verdade parcial, anseias pela Verdade Inteira. Essa fome que te devora não é de pão, mas de Eternidade.
Poderia, acaso, a Natureza, tão sábia em seus desígnios, implantar em ti uma sede para a qual não houvesse fonte? Teria ela esculpido em teu espírito a fechadura, sem que existisse a chave? Seria o teu coração a única anomalia em todo o cosmos, um desejo infinito lançado num universo finito, uma seta apontada para um alvo que não existe? Não. A própria existência do desejo é o argumento da existência do seu objeto. Assim como a fome prova o alimento e a sede, a água, assim essa tua santa e terrível inquietude prova a Deus.
Tu choras porque foste feita para uma alegria que o mundo não te pode dar. Sentes o vazio porque foste criada para uma Plenitude que não se encontra nas criaturas. És um rio que corre, sem o saber, para o seu oceano; és uma águia nascida para os cumes, mas criada em cativeiro no vale. O teu pranto, no silêncio da noite, não é senão a saudade da pátria celeste; o teu vazio não é senão o espaço em teu peito que só o Infinito pode preencher.
Não busques, pois, a prova de Deus nos silogismos dos sábios, nem nas maravilhas do universo, se a tua razão se recusa a vê-la. Busca-a no mais profundo arcano de ti mesma, na ferida que não sara, na pergunta que não cala. A tua dor é a tua prova. A tua lágrima é o teu argumento. Porque, como disse o Doutor de Hipona, Ele nos fez para Si, e inquieto está o teu coração enquanto n'Ele não repousar. Esse Vazio que te habita não é a tua cova, mas o teu berço, onde a alma, despida de tudo o que é efêmero, anela por renascer em Deus.