Julho 2025
O exame da aparente auto-movência da vontade – esta faculdade que, sendo domina sui actus, parece infirmar o princípio metafísico fontal omne quod movetur, ab alio movetur, sobre o qual repousa a demonstração do Primeiro Motor Imóvel – exige, para sua reta solução, aquela distinção rigorosa, ensinada pelo Doutor Angélico, entre a especificação do ato (onde a vontade é movida finalisticamente pelo bem que o intelecto lhe apresenta) e o seu exercício (onde ela, a vontade, embora se mova eficientemente para os meios, fá-lo pressupondo-se já movida pela volição do fim), movimento este-o da volição do fim – que, longe de constituir uma auto-atualização absoluta, depende radicalmente do influxo do Agente Primeiro, Deus, Aquele que lhe confere a própria inclinação natural ao bem universal, de tal modo que este influxo, o divino, não suprime a liberdade, mas a funda; cuja mesma lógica resolutiva aplica-se analogamente ao caso da geração, onde a virtude seminal da semente, esta que parece mover-se a si mesma para o ato de árvore, não é, em rigor, senão um motor instrumental – um movens motum –, cuja potência ativa, derivada remotamente do gerador que a constituiu, só passa ao ato sob a moção de motores extrínsecos próximos, como o sol e os nutrientes, demonstrando-se assim, em ambas as instâncias e contra qualquer aparência de exceção, a universalidade indefectível daquele princípio primeiro.
Videtur quod sic. A vontade parece ser o motor primeiro na alma, pois mesmo o que o intelecto apresenta como bom, a vontade pode querer ou não querer. Ela é senhora de seu ato (domina sui actus). Se a vontade fosse movida por outro para o exercício de seu ato, então não seria livre, mas coagida, o que contraria a experiência da liberdade e a imputabilidade moral dos atos humanos. Logo, a vontade move a si mesma, e não é movida por outro.
Praeterea. As criaturas vivas, como os animais, parecem mover-se por si mesmas. Um cão, ao ver o alimento, move-se em direção a ele. O princípio de seu movimento parece ser intrínseco, a saber, sua alma sensitiva e seu apetite, sem que um motor externo o impulsione. Se os animais se movem, mas não parecem ser movidos por um outro exterior, então o princípio “tudo o que se move é movido por outro” não é universal e admite exceções.
O Filósofo, Aristóteles, ensina no livro VII da Física, e o Aquinate assume como pilar de sua demonstração, que “tudo o que se move é movido por outro” (omne quod movetur, ab alio movetur). E o Apóstolo diz em Hebreus 11, 6 que sem fé é impossível agradar a Deus, fé que se assenta também na reta razão que nos conduz ao Criador a partir das criaturas, como se lê em Romanos 1, 20. Negar um princípio metafísico tão evidente como este é abalar os preâmbulos da fé.
Para a correta intelecção desta matéria, é mister fazer algumas distinções (distinguo), conforme o método do Doutor Angélico.
Primeiramente, definamos os termos. “Mover” (movere) nada mais é que reduzir algo da potência ao ato. O princípio que aqui se discute é um axioma metafísico fundamental: nada pode ser, simultaneamente e sob o mesmo aspecto, em ato e em potência. Algo que está em potência para receber uma perfeição (um “ato”) não pode dar a si mesmo essa perfeição, pois para dar, precisaria já tê-la, ou seja, já estar em ato. Seria como algo frio aquecer a si mesmo, sem nenhuma fonte de calor. Portanto, é metafisicamente impossível que algo mova a si mesmo do estado de potência para o de ato.
A objeção sobre a vontade procede de uma análise incompleta de seu movimento. É preciso distinguir na vontade um duplo “movimento”, como ensina Santo Tomás, principalmente na Suma Teológica 1.
Quanto à especificação do ato: Refere-se ao objeto, ao quê a vontade quer (p. ex., querer estudar ou querer passear). Neste sentido, a vontade é movida pelo intelecto. O bem, enquanto apreendido pela inteligência, move a vontade não como causa eficiente, mas como causa final, ou seja, como o objeto que a atrai. Ninguém quer o que não conhece. 2
Quanto ao exercício do ato: Refere-se ao fato de querer ou não querer, de usar ou não usar as potências. Neste sentido, a vontade move a si mesma e às demais potências da alma. Eu posso pensar porque quero, andar porque quero, e assim por diante. A vontade é a causa eficiente destes atos. 3
A objeção se apega a este segundo ponto, concluindo que a vontade é uma exceção à regra. Contudo, a análise deve prosseguir. Mesmo no exercício do ato, onde a vontade se move, ela não o faz de modo absoluto, como se fosse um primeiro motor a partir do nada.
A vontade move a si mesma para querer os meios (ea quae sunt ad finem) porque já é movida pelo desejo do fim (finis). Por exemplo, a vontade move a si mesma para querer tomar um remédio amargo (meio) porque já está em ato de querer a saúde (fim). Portanto, um ato da vontade (querer os meios) é causado por um ato prévio da vontade (querer o fim).
Resta, porém, a questão: o que move a vontade a querer o fim? E aqui chegamos ao núcleo da solução. A vontade de um fim particular é movida pela consideração do fim último, a felicidade. Mas o que move a vontade para o seu primeiro ato de querer? Santo Tomás ensina que a vontade precisa ser movida por um princípio exterior (ab aliquo exteriori principio).
Este princípio exterior é duplo: a) o objeto apreendido pela inteligência, como já dito, que atrai a vontade; b) e, de modo fontal e radical, Deus mesmo, que é o Primeiro Motor de toda vontade e de toda natureza.
Como explica o Aquinate em De Malo4, e na Suma Teológica5, Deus move a vontade de duas maneiras. Primeiro, dando-lhe a inclinação natural para o bem universal (bonum in communi), que é o seu objeto próprio. Toda vontade, por natureza, quer o bem. Esta inclinação natural é impressa na vontade por seu Criador, assim como a gravidade é impressa no corpo pesado. Segundo, Deus pode mover a vontade, pela Sua graça, a um ato determinado, sem com isso violar sua liberdade, pois Ele opera no mais íntimo de cada ser, movendo-o conforme a sua natureza própria.
Portanto, a vontade humana, ao se mover para querer os meios, já está movida pelo fim. E ao querer o fim último (a felicidade em geral), é movida por sua própria natureza, a qual lhe foi dada e é conservada por Deus. E para qualquer ato particular de querer, é movida pelo bem particular apresentado pelo intelecto e, em última instância, pelo influxo de Deus, o Primeiro Motor Universal, que a tudo move para o seu fim.
Assim, a premissa da Primeira Via permanece inabalada: a vontade se move, mas não sem ser, de modo radical e originário, movida por outro.
Ad primum: Concede-se que a vontade move a si mesma ao exercício do ato de querer os meios, e nisto reside o livre-arbítrio. Contudo, este automovimento não é absoluto, pois pressupõe o movimento que a vontade sofre por parte do fim, apresentado pelo intelecto. E a própria inclinação para o fim último é causada por Deus, que dá à vontade sua natureza e a conserva no ser. O movimento divino na vontade não é coação, mas a causa fontal que possibilita a própria liberdade. Deus move a vontade como quem lhe dá a virtude de se mover, não como quem a empurra violentamente. Como ensina o Doutor Angélico, “Deus move o homem a agir não apenas propondo o apetecível aos sentidos, ou alterando o seu corpo, mas também movendo a própria vontade, porque todo movimento, tanto da vontade quanto da natureza, procede d’Ele como do primeiro motor” 6.
Ad secundum: Aos animais também se aplica o princípio, e sem falha. O animal move-se a si mesmo enquanto sua alma (princípio intrínseco) move seu corpo. Porém, a alma do animal não se move ao ato de mover o corpo senão por ser ela mesma movida pela apreensão de um bem sensível (o alimento). Esta apreensão, por sua vez, é causada pelo objeto exterior que age sobre os sentidos. Assim, a cadeia de movimento não se origina no próprio animal, mas remonta a um motor extrínseco e, em última análise, ao Primeiro Motor que deu ao animal sua natureza e ao mundo sua existência.
Conclusão: A máxima “omne quod movetur, ab alio movetur” não padece de exceção. A vontade humana, obra-prima da criação, reflete a causalidade divina de modo sublime: move-se livremente, mas este mesmo mover-se livre é um dom e um efeito d’Aquele que é o Princípio imóvel de todo movimento.
Videtur quod sic. A semente contém em si a potência passiva de se tornar uma árvore, mas também um princípio ativo ou virtude seminal (virtus seminalis) que dirige o seu desenvolvimento. Esta virtude interna não parece ser um mero receptor passivo de influências externas, mas a causa formal e eficiente que organiza a matéria e a conduz através dos estágios de crescimento. Portanto, a semente move a si mesma para o ato de ser árvore, sendo ela mesma o motor (pela sua virtude ativa) e o móvel (pela sua matéria em potência). Assim, o princípio de que o motor deve ser distinto do móvel parece falhar.
O Filósofo, em sua Física7, ao tratar da geração dos seres vivos, afirma que, embora o animal se mova, ele não é o motor de sua própria geração. E mais claramente, em Metafísica8, estabelece que a causa eficiente da geração é um ser da mesma espécie já em ato: “o homem gera o homem”. Portanto, o princípio do movimento generativo não está no ente gerado, mas no gerador. E Santo Tomás, comentando a Física, reitera que “nada pode gerar a si mesmo”9.
Esta objeção, que reflete a análise escotista, repousa sobre uma confusão entre um princípio de movimento (principium motus) e um agente motor (agens movens) que esteja em ato. É necessário, mais uma vez, distinguir (distinguo).
O axioma “tudo o que se move é movido por outro” é inabalável porque se funda na distinção real entre ato e potência. Uma coisa, na medida em que está em potência para uma perfeição, não pode, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, possuir aquela perfeição em ato para dá-la a si mesma. Isto seria uma contradição nos termos.
Analisemos o caso da semente com maior precisão:
A Semente como Móvel: É evidente que a semente está em potência para se tornar uma planta adulta. A matéria da semente e os nutrientes que ela absorverá são o sujeito da mudança, o móvel. Nisto, todos concordamos.
O Princípio Ativo na Semente: É verdade que a semente não é mera matéria inerte. Ela possui uma forma substancial e uma virtude ativa (vis activa) que lhe foi comunicada pelo gerador (a planta-mãe). Esta virtude é um princípio intrínseco que dirige o processo de crescimento para um fim determinado: a forma da planta adulta. Contudo, este princípio ativo interno não é um motor primeiro, mas um motor movido e instrumental.
A semente não inicia seu movimento a partir do nada. Para que sua virtude ativa passe da inatividade à atividade, ela precisa ser movida por agentes externos:
O Calor do Sol (ou do ambiente): que ativa os processos bioquímicos. O sol é um motor extrínseco.
A Água e os Nutrientes da Terra: que são a matéria que a semente assimila e transforma. Estes nutrientes movem a semente ao alterá-la, e a semente reage a esta moção.
Portanto, a virtude seminal dentro da semente é como um artífice subordinado ou um instrumento. Um machado tem a virtude ativa de cortar, mas só corta se for movido pela mão do lenhador. A semente tem a virtude ativa de organizar a matéria, mas só a organiza quando é movida a agir pelo calor e pela matéria que lhe é fornecida pelo ambiente.
Santo Tomás explica este ponto com precisão ao falar da geração: a virtude ativa que está no sêmen (ou na semente) é um motor instrumental, cujo poder deriva do motor principal, que é a alma do gerador.
“O poder ativo que está no sêmen, proveniente da alma do gerador, é como um movimento de um instrumento, que não tem por si mesmo nenhuma forma preexistente, mas atua em virtude do agente principal.”10
Assim, a semente não é simultaneamente e sob o mesmo aspecto motor e móvel. Ela é:
Móvel: enquanto sua matéria está em potência.
Motor: não como agente principal, mas como agente instrumental, que por sua vez é movido por dois outros motores: a) remotamente, pelo gerador (a planta-mãe), que lhe deu a forma e a virtude ativa; b) proximamente, pelos agentes externos (sol, água, terra), que a tiram do estado de dormência e lhe fornecem a matéria para a transformação.
A distinção tomista não cai; pelo contrário, ela é a única que explica o processo sem contradição. A semente não se dá a si mesma o que não tem. O ato para o qual ela se move (a forma da planta adulta) preexiste de modo intencional em sua virtude seminal, virtude esta que foi causada por um ser já em ato (a planta-mãe) e que só se atualiza sob a moção de outros seres em ato (o sol, a água).
A posição escotista, ao postular na criatura uma capacidade de auto-atualização sem a necessidade de um motor extrínseco já em ato, obscurece a dependência radical de toda criatura em relação à causalidade extrínseca e, em última análise, à Causalidade Primeira, que é Deus.
Esta objeção é respondida pela distinção entre causa principal e causa instrumental. A semente, de fato, contém um princípio ativo, mas este princípio é de ordem instrumental. Não é a causa primeira de seu próprio desenvolvimento. A semente é motor, mas um motor movido (movens motum). A Primeira Via não exige apenas que haja um motor distinto, mas que a cadeia de motores movidos não prossiga ao infinito, devendo culminar num Motor que não seja movido por nenhum outro. O exemplo da semente, quando retamente compreendido, é uma excelente ilustração de um motor movido que exige, para sua operação, tanto o gerador que o constituiu como os agentes externos que o ativam, os quais, por sua vez, remetem a outros motores, até chegar-se ao Primeiro Agente, Deus.
Conclusão: O exemplo da semente, longe de refutar o princípio da Primeira Via, o confirma esplendidamente. Ele nos mostra uma hierarquia de causas: a semente (motor instrumental) é movida pelo sol e pelos nutrientes (motores próximos), e foi constituída em sua virtude ativa pela planta-mãe (motor remoto). Toda esta constelação de causas segundas e movidas seria inexplicável sem um Primeiro Motor Imóvel, que a tudo sustenta no ser e na operação.
Summa Theologiae, I-II, q. 9↩︎
Summa Theologiae, I-II, q. 9, a. 1.↩︎
Summa Theologiae, I-II, q. 9, a. 3.↩︎
De Malo, q. 6↩︎
Summa Theologiae, I-II, q. 9, a. 4 e a. 6↩︎
Summa Theologiae, I-II, q. 6, a. 1, ad 3↩︎
Física, VIII, 4, 255a.↩︎
Metafísica, VII, 7, 1032a.↩︎
Commentaria in VIII Physicorum, lect. 8.↩︎
Summa Theologiae, I, q. 118, a. 1, ad 4.↩︎