Tendo em vista que estou estudando a Gramática (a primeira das Sete Artes Liberais), e, sendo esta (na tradição) o mesmo que aquilo chamamos de “Literatura”, nada mais justo que “cometer o crime” de arriscar-se a escrever alguns poemas (julguem-me). É inegável que é a melhor forma de se aprender a Gramática, ou pelo menos consolidar o que foi aprendido. A Gramática é a arte unicamente da escrita, mas suas normas provém de grandes escritores, lê-los é a forma de aprender. Como diz Carlos Nougué, em sua Suma Gramatical da Língua Portuguesa (p. 60):
“[...]o escritor não delibera nem executa nenhum projeto do gramático, senão que antes este seleciona, ordena e transmite o já projetado, deliberado e executado pelos melhores escritores, entre os quais, aliás, como dito, ele mesmo se inclui ou poderia incluir-se.[...]”
e:
“[...]não se trata de fechar paradigmas segundo o mero gosto do gramático, mas de eleger entre usos já presentes entre os melhores escritores aquilo que mais condiz com o padrão culto geral da língua, com o padrão culto geral de línguas próximas, etc. E em princípio, porém, o gramático pode contar-se entre os melhores escritores, razão por que ele também já é parte atuante na constituição do referido padrão convencional.[...]”
Dito isto, não custa tentar; caso não consiga, algo de bom terá sido retirado desta tentativa (longe de ser falha). E, se em meio a todos os poemas e comentários que farei sobre cada um deles, alguém conseguir tirar algum ensinamento, estarei contente. Por isso, convido todos aqueles que estão nessa etapa da formação a escrever poemas, nem que sejam simples (como os que se seguem), mas aplicando o que aprendeu em cada etapa do estudo da Gramática. Tendo feito isso, ao findar dos seus estudos, terá deixado uma marca de sua evolução, de sua disciplina e de sua jornada. Por isso, o que pretendo com isso tudo (com essa seção de poemas) é registrar cada passo do meu estudo e, possivelmente, ajudar quem também esteja nesta etapa. Com isso finalizo esta introdução. Os poemas que lerão serão marcados com datas para que se veja a evolução (assim espero) com base no tempo (algo como a eficiência de aprendizado, a razão melhoria/tempo). Eu nunca havia escrito nenhum poema, e Flor da Flama é meu primeiro. Se possível, gostaria que me enviassem sugestões, avaliações e, se sentirem-se confortáveis, até mesmo seus próprios poemas, utilizem este meio para isto.
11/10/2024 | 17:38
Flor da flama, feita de suave sopro,
Símbolo falaz de um tempo sem passagem,
Flor da flama feita de suave sopro.
Alba, e pura, e bela, e rara imagem,
Flor que os campos vestem, em seus matizes.
Afasta do peito as névoas funestas,
Flor que os ventos fazem, levemente,
Afasta do peito as névoas funestas.
Flor de um riso santo, sempre contente,
Faz em cada face um céu resplandecente.
11/10/2024 | 19:47
Sopra o jardim, Favônio, em flor se vendo,
Suave a face volvendo, a fronte pura
Da doce Primavera, a flor mais madura
Nos campos verdes, onde estás crescendo.
Fresca bonina em teu jardim crescendo,
Enquanto o teu sorriso está florindo,
No prado, a rosa fresca reluzindo,
Entre aromas e cores se expandindo.
Se abrem, ledas, as suaves flores,
Em brancas pétalas se enfeitando,
De aromas mil nos vales se findando.
Doce aroma, que em suaves flores
Se expande e n’alma acende os fervores,
Enchendo o espírito, em paz finando.
30/11/2024 | 19:32
À roda do chimarrão, erva querida,
Que a mão amiga passa, gesto afamado,
Da infância à idade, em gesto estimado,
Se acende o fogo da alma e da vida.
Em roda se reúnem, qual se em lida
De amor, no qual o peito, abrasado,
Da verde erva sente o doce traçado,
Em cada cuia o carinho, não fingido.
Do mate amargo, bebida constante
Daqueles que no pampa ou na montanha,
De estirpe humilde ou em solar estância,
Em torno se irmanam; fala pujante,
Da tradição das gentes vigilante,
Que acende no mais rude a mais branda esperança.
05/12/2024 | 05:32
Em solitária gruta, a mente em flor,
Sem voz, sem eco, a coisa em si contemplo:
Um rio, um monte, o céu, que em cor me templo,
Em mudo espanto, sem saber o amor.
Mas eis que surge, qual suave flor,
A voz que o nome às coisas dá, no exemplo
De Adão, que a terra fria viu no templo
Do Éden verde, onde lhe deu o Criador.
Da coisa, a imagem; desta, a ardente paixão;
Da paixão, o signo vocal; e, em seguida,
O signo escrito: a antiga tradição
Das letras, que em papiro ou argila unida,
Conserva a língua, arte na mão,
A qual, na essência sua, não é fingida.
Se porventura a um lírio o nome queres dar
A um jasmim; se as rosas tu nomeias
Cravos agora, ora begônias brancas,
De que te val’ saber como se faz?
Se trocas os vocábulos e te entrega o teu pensar
A novos erros, se o arbítrio empregas em tamanhas
Confusões, que das coisas não esperas,
Em falso siso, o juízo, que não alcança.
Um legislador fez a língua ser, e lhe deu seu lugar.
Se agora os mais, que na ignorância dormem,
O seu preceito não querem respeitar,
Que cada um como os brutos a vagar,
No plaino, que um só pastor os governe!
Sem linguagem, que bem podeis pensar?
Que a rosa é rosa, e lírio é lírio, aprende.
E os nomes são das coisas em que nascem.
Ou, neste engano, o teu juízo se prende.
Saibas que um lírio branco o nome tem
De lírio, porque assim quem o criou.
Se alguém diz que é lírio, e não o que é, nem
Mesmo Deus que o criou em seu lugar o pôs.
Do nome, pois, a essência não esqueças.
Mas se outra voz, outra palavra, em teu ouvido soa,
E a mesma essência nela se encerra,
Não desanimes, pois, se mudam os verbos
Que outro nome ao lírio, outro som, quem os doa
Não muda a flor que em suave odor se encerra.
No sumo Bem, reside toda força, nele toda a c’roa.
02/02/2025 | 12:17
Cá das plagas brutais, de vis assombros,
Onde o tempo, fugaz, consome a vida,
Ergo a voz, qual troar de vis escombros,
Contra a infância em que jaz alma perdida.
Em tempo de névoa e de razão turvada,
Quando a virtude jaz sepultada,
E o eco da verdade já se cala,
Surge uma voz, frágil e agastada,
De alma tenra, inda não calejada,
Que em vitupérios e queixumes fala.
“Oh, dia de lições, fardo pesado!”,
Clama a voz em lamento desmedido,
“Por que não foges, tempo almejado
De descanso, por mim tão perseguido?”
Ora, escutai, mancebos de hoje em dia,
Que a dor proclamam mestra na porfia,
E a angústia como mãe, que vos gerou!
A vida, em sua rude faina fria,
A todos traz agrura, noite e dia,
Mas não se queixa quem já a suportou.
Oh, míseros! Que em peito inda rude
Não sentem da razão a claridade,
E buscam no pesar, com falsidade,
A glória vã, que o tempo já derruba.
Não, a dor não ensina, nem redime,
Apenas nos consome e nos abate,
E o espírito, que em trevas se comprime,
Em vão busca uma luz que o resgate.
Que a vida é luta, e o homem se aprime
Na têmpera do ferro, no combate.
Não é a dor que à têmpera conduz,
Nem a angústia que à alma traz grandeza,
Mas sim a reta via, onde reluz
A luz divina, em toda a sua pureza.
Quem diz que o mundo quer lhe ver de bruços,
Que é vítima do mal, na insensatez,
Esquece-se do bem, que em tempos bruços
Às gentes ensinava altivez.
Amai, sim, mas amai com a mente sã,
E não como quem chora e se lamenta,
Que a lágrima é enganosa, é irmã vã
De um prazer que no fim só atormenta.
Se o mundo vos parece uma prisão,
Lembrai-vos: sois vós quem vos apresenta
A grilhões que o próprio pensamento
Forjou, num vão, caduco e vão momento.
Erguei a fronte! Não vos deixeis levar
Por vãs quimeras, sombras de ilusão!
Que a força do viver, do pelejar,
Está em terdes sempre a reta intenção.
Não vos deixeis levar por quem, ao mar,
Atira, sem cuidado, o coração;
Que o mar, também, como o sabeis deveras,
É pátria de monstros e de feras.
Se a dor vos visita, como o faz
A todos nós, mortais, lembrai, contudo:
A dor maior só nasce na falaz
Mentira que se conta; o mundo mudo
Não vos quer mal, pois vós o demandais;
Que o mal maior de todos é ser surdo
À voz da razão, que sempre ordena,
Em meio à dor, terdes a fronte erguida, serena.
Fugi, pois, da fraqueza, que vos prende
À teia dos enganos, tecida
Pela inércia, que à alma logo rende
E faz chamar de dor, o que é só vida.
Erguei os olhos para onde resplende
A luz do bem, de lá de mui cumprida
Altura, de onde a graça se derrama,
Que a todo o mal vence e que a tudo inflama.
Pois, se credes, como em vão lamento,
Que o mundo contra vós foi feito, e o é,
Lembrai que o mal só viceja num momento,
Mas a virtude sempre vive de pé.
Não vos deixeis levar por sentimento
Que, inda que justo for, não tenha fé
Na justiça de Deus, que tudo pode,
E que, em tempo, a seu modo, a dor acode.
Ficai, então, sabendo, tenras almas,
Que a dor não é mestra, nem a angústia mãe,
E que em verdes prados ou nas secas palmas,
A virtude é que impera, e esta convém.
Segui o exemplo dos varões de fama,
Que em meio às dores não diziam "ai!",
Mas, fitando o alto, onde a Verdade clama,
Venciam do imo peito todo o descontrole,
E, em feito, demonstravam ter mais brio e garbo,
Pois é na adversidade que o homem se engrandece,
E a têmpera do caráter se enobrece.
Erguei, pois, a cabeça, e com denodo
Enfrentai o que o Fado vos reserva,
Sem lamúrias, que ao homem, de bom modo,
Não convém tal conduta, em tempo e verba.
Não vos torneis, em prantos, tão somente,
Sombra do que pudestes, com vigor,
Mas buscai, na alegria, a luz fulgente,
Que é na virtude que reside o amor.
Que o mundo é mau, dizeis, com voz sentida,
Mas quem o faz assim, senão o homem?
A esperança não pode ser perdida,
Nem os sonhos que as almas não consomem.
Amai a vida, mesmo em seus pesares,
E buscai, no labor, a recompensa;
Não vos deixeis levar pelos azares,
Nem pelas vãs palavras e a crença.
E se a vida, enfim, vos for custosa,
Lembrai que a morte, à espreita, está à porta;
Mas não temais, pois a alma é gloriosa,
E a verdadeira vida não é morta.
17/02/2025 | 17:56
O sacro som do etéreo clarim
Quebra o silêncio fundo,
E aos séculos sepultos dá um fim,
E ao anjo moribundo.
Com fúria e fogo, o Tempo se aniquila,
E a Ira de Deus no Mundo ora rutila.
A luz do Sol em cinzas se desfaz,
E treme a Lua, em pálido negrume;
Dos astros cai o fúlgido cartaz,
E o mar recua ao seu primeiro lume.
A terra geme, em parto derradeiro,
Do pó volvendo ao gesto verdadeiro.
Do pó da terra, a carne se levanta,
E busca o osso, em pávido arrebol;
A alma desperta, e em ânsia se agiganta,
Para vestir seu lúgubre lençol.
Em pé, as gentes, turba innumerable,
Ante o Trono de flamas se apresenta.
A história finda, o livro inalterable
Expõe a culpa, e a glória, e a vil sentença.
Que direi eu, de cinza e pó formado,
Se o livro de meu peito se descerra,
E cada instante meu, já resgatado,
Grita a ofensa que fiz por toda a terra?
Oh, tremo, e a alma em mim se desbarata,
Sem véu que a cubra, ou falso abrigo brando.
A nua culpa em minha fronte assalta
O olhar de Quem me está, tremendo, olhando.
Silêncio pesa em todo o Firmamento;
Calam-se os Anjos, cessa a melodia.
Só Vossa Majestade, em um momento,
Julga os séculos todos, num só dia.
Na balança eternal, pesada e justa,
Nem prece engana, nem poder desvia;
A obra vil, que tanto à carne custa,
Na luz fulgente se revela impia.
A Vós, que sois Juiz e sois Cordeiro,
Que a lança recebestes em meu lado,
Clamo, por vosso Sangue, o derradeiro
Refúgio deste peito assinalado.
Lembrai-Vos, pio, que por mim descestes,
Não me percais na hora resoluta.
As dores que por mim na Cruz sofrestes
Não sejam vãs, na angústia que me enluta.
À destra os justos, com sinal de glória;
À sinistra, os que a Graça recusaram.
Eterna pena, ou ínclita vitória,
Segundo as obras que na vida obraram.
O abismo chama, a chama se prepara
Para a alma que de Vós se fez ausente.
Oh, que pavor, que noite sem luz clara,
Que eterno fogo em pranto permanente!
Lacrimoso este dia, em que renasce
O homem da cinza, para o seu Julgar.
A este perdoai, e que Vos lace
Piedade, ao Vosso trono me abrigar.
Não peço por meu mérito, que é nada,
Mas pelo amor que a cruz ensanguentou.
No fogo, a alma por Vós seja abrigada,
Pois que na terra o mundo me enganou.
15/03/2025 | 19:37
Sopra a trombeta em som que o mundo aterra,
E o alicerce do empíreo Céu abala;
Aos mortos manda erguer-se de sob a terra,
E a voz do Arcanjo os astros desinstala.
Findo o combate, a paz e a antiga guerra,
A um só poder o tempo se vassala;
E o mar devolve os corpos que continha,
Para a colheita, que é de Deus e vinha.
Arrancam-me do pó, e o peso antigo
Na alma desperta e no que fui me acusa;
O abismo da memória é meu castigo,
Verdade que a soberba ora recusa.
Vi tarde a face Tua, e em vão persigo
A senda que perdi, já sem escusa;
Na fronte sinto o gelo da sentença,
E do perdido bem a atroz presença.
O Livro aberto, folha por folha, viras,
Em que não há da vida cousa oculta;
Não por meu ser, mas por Teu sangue, miras
A mancha que em mim era, e ora se insulta.
Lavada a veste, em luz que me retiras
Da sombra, a Graça Tua em mim exulta;
E a alma treme, de assombro trespassada,
Por ver-se em tal pureza levantada.
Selo de fogo na alma me puseram,
Com que meu fado imutável se escreve;
As vãs delícias que os sentidos deram,
Cinza se tornam nesta hora breve.
As portas que se abriram, já se fechem;
Já não há tempo de que a dor se eleve
Em prece humilde; e o pranto, em vão vertido,
Na sede eterna morre consumido.
Não fogo, mas um doce alvor me banha,
Que a treva dissolve do que em mim havia;
Como, Senhor, a mim, a quem tamanha
Vileza à terra vil sempre prendia?
Pois que virtude minha, ou que façanha,
De tal mercê condigna se faria,
A quem a Graça Tua não erguia,
Do pó da morte à luz do eterno dia?
E entendi, sem querer, a justa medida
Com que pesaste a glória e o sofrimento;
Vi como a Tua mão foi estendida,
E o meu soberbo e vão contentamento.
O fio que teci, a torpe vida,
É a mortalha do meu pensamento;
E eu de fora, na sem-luz eterna,
Vejo a porta que a Tua paz governa.
E um cheiro se elevou de flor perene,
Perfume de justiça sossegada,
Que toda a dor mortal faz ser amene,
E a alma em pranto deixa consolada.
Do Cordeiro imolado, em nívea cene,
A fronte vejo em Glória coroada;
Coroa imerecida, que me deste,
No dia em que a Ti mesmo Te perdeste.
Cala-se a voz do Anjo e do culpado,
E o coro dos eleitos emudece;
Findo o tempo, e o juízo consumado,
E tudo se calou. Só permanece
Tua face, que o mundo tem julgado;
E o Amor e a Justiça resplandece.
09/04/2025 | 21:32
Anselmo, mestre em letra alta e pia,
Que de Aquino as Sumas estudara,
E a Deus por via certa conhecia,
Qual Doutor Angélico ensinara,
No templo aos domingos assistia,
Onde a fé professava sã e clara;
Mas, findo o rito, ao lar se recolhia,
Sentindo a alma deserta, escura e fria.
Sabia o Ente, o Sumo Bem Primeiro,
Do κόσμος (cosmos) causa, fim, sustento;
Via da Lei o fúlgido letreiro,
E o justo prêmio e o infindo sofrimento.
Mas no peito o dulçor seu, verdadeiro,
Não sentia, nem vivo acendimento;
Era a razão senhora, e a sã vontade
Jazia inerte, em fria orfandade.
Mirava o Sol no ocaso rutilante,
Pintando as nuvens d’ouro e sangue vivo;
Louvor subia em hino altissonante
Da natureza ao gesto criativo.
Mas n’alma sua, absorta e hesitante,
Não medrava o fervor contemplativo;
Um eco frio, um nome repetia,
Sem que do Amor a chama o consumia.
Assim vivia, em lúcida cegueira,
A Verdade sabendo, sem amá-la;
Alma cativa, à própria prisioneira
Razão, que exalta o Ser, mas não o iguala.
Que não basta entender a Luz Primeira,
Se o coração, humilde, não se embala
Na Graça imerso, e busca, em puro ardor,
No Amor o fim, no Amado o seu Senhor.
03/05/2025 | 09:51
Ausente jazes, e o peito meu padece,
Sombra de um laço que o fado desfazia;
Outrora uno em senda, a luz do dia
Buscávamos, mas sombra agora te apetece.
Nós, que em busca de etéreas verdades
O espírito elevávamos em voos singulares,
E o teu fado te arrasta a outros lares,
Onde a alma em vão consome breves idades.
Lembro dos laços, do saber profundo,
Que ao teu espírito, lasso, parecia
Fardo pesado, neste baixo mundo,
E escolheste a falaz, fugaz alegria.
Suspira a lira, e a voz se me entristece,
Ao ver-te longe, em sendas desviado.
Mas resta a dor, que em pranto se humedece,
Por um fado que em nós foi separado.
04/05/2025 | 03:45
Ó vós que o pó pisais, em tempo breve,
E a frágil vida por firmeza haveis,
Sabei que o Amor que a tudo o ser prescreve,
É fogo que se oculta onde não vedes.
Aqui, onde a esperança não fenece,
Mas arde em dor por leis inabaláveis,
A alma se prova, e a si mesma conhece,
Culpada de seus gostos tão sobejos.
Não creiais na palavra confessada
Que o peito impuro em leve sopro exala,
Nem na água santa, em fronte derramada,
Se a contrição na mente não se instala.
Vã cinza sobre a chaga não curada
Só mais a podridão interna abala;
Que a falta de uma dor que em vós não arde,
Aqui se paga em fogo, cedo ou tarde.
Tarde Vos vi, meu Sol, tardia a prece,
Que o mundo em mil afetos me prendia!
A criatura, que hoje me parece
Sombra de barro e vã idolatria,
Por Deus tomei; e a alma se entristece,
Lembrando a luz que néscio em mim perdia.
E sofro não da pena que me invade,
Mas de ofender tão suma Majestade.
Esta flama que vês não me devora
Por vingança do mal que me foi vida,
Mas limpa a escura mancha, e me aprimora
A alma, para a Pátria prometida.
É Deus que em mim se espelha, e a toda a hora
Me mostra a face dantes escondida;
E em sua luz, que os anjos extasia,
Contemplo quão imunda em mim jazia.
Orai, ó vós, que a frágil carne vestis,
Por nós, que em muda súplica sofremos,
Neste exílio de ardores tão celestes,
Onde, amando, por mais amor gememos.
Que a vossa prece os laços nos desfaça
Destes nós, que em vivendo em nós tecemos,
Até que, limpa enfim de toda a massa,
A alma se entregue à sempiterna Graça.
05/05/2025 | 23:12
Em sonhos vi, senhora peregrina,
Face de luz, que a aurora envergonhava;
Em etéreo jardim, onde pairava,
A alma em enlevo, a ti se me enclina.
Mas o Sol, invejoso, a luz descrina,
Rompe o véu do meu sono, e me afastava
Doce enlevo, que o peito me inflamava,
Deixando a dor, que a mente me amofina.
Oh, fugaz aparição, tão breve encanto!
Por que a vigília, em seu cruel mistério,
Tão doce sonho converteu em pranto?
Resta o vazio, o peito em vitupério.
15/05/2025 | 15:49
Canto o Divino Verbo, em cujo Seio
Do Pai repousa a sempiterna glória,
Que, antes que o tempo fosse ou o mundo veio,
Já era em si da suma luz a história.
Canto o Amor que, sem causa ou sem receio,
Decreta da Bondade a alta vitória,
E, por salvar a gente em mal imersa,
Em carne frágil sua grandeza versa.
E por que a tal desígnio se inclinasse
O Céu, e a terra o recebesse em si,
Uma Donzela achou de humilde classe,
Mais pura que a alva neve que eu já vi.
Nenhum pecado sua alma maculasse,
Para que o Deus perfeitíssimo ali
Fizesse seu Sacrário soberano,
Vestindo a forma do mortal engano.
O Arcanjo desce, e à Virgem anuncia
O mistério de excelsa e nova sorte;
A Graça a excede, e a serva d’Deus anui:
— “Faça-se em mim a Vontade do forte!”
Treme o orbe, e o Sol seu brilho diminui,
As esferas suspendem seu transporte,
Que em frágil seio o Imenso se continha,
Feito Homem Quem a tudo em nada tinha.
Ó Grão Paradoxismo! Ó Rei dos Céus,
Que por palácio buscas vil presépio!
Por corte, os animais, em vez de Deuses,
E o feno por real e insigne arpéu!
O que os anjos adoram, entre os réus
Jaz, sem ter do seu fasto um só lampejo.
Quem pode tal amor sondar profundo,
Do Criador, mendigo, vir ao mundo?
Ó mão que os astros firma e os sustenta,
Em faixas de pobreza contraída!
Ó Verbo que os espaços alimenta,
Por gota de um seio humano mantida!
Quem rege o tempo, em tenras horas senta-se
No colo de uma Mãe enternecida.
Que abismo de doçura e maravilha,
Ver Deus chorar, no Filho de uma Filha!
Rompe a noite dos séculos escuros
Com luz jamais sonhada, esta presença,
Quebrando os feros e pesados muros
Que nos firmara a antiga desobediência.
E aos homens de seus fados inseguros
Vem dar da salvação nova sentença,
Que a culpa de Adão paga, e a pena forte,
Um Deus Menino, que venceu a Morte.
E eu, que em vãs cobiças me perdia,
Longe de Ti, meu Bem, meu só tesouro,
Tarde Vos amei, ó Luz que me alumia,
Beleza antiga e sempre novo louro!
Mas vejo em palhas, na pobreza fria,
O preço de meu sórdido desdouro.
E o peito, em cinzas, rendo e me desfaço,
Ante este Amor que se me fez regaço.
28/05/2025 | 00:35
A Coroa de Rosas soberana,
E os Mistérios que a fé nos manifesta,
Canto, e a celeste e sobre-humana escada
Que da terrena cova nos arresta;
Arma de luz, por mão angélica obrada,
Que à serpente infernal se faz funesta,
E o laço de ouro fino com que atamos
Nosso exílio ao Céu, por quem choramos.
Por cada grão que a mão contrita passa,
Um degrau se alevanta à etérea Sede;
Escada de orações, que a suma Graça
À alma sequiosa em dom concede.
Qual sonhou Jacó, que o Céu desfaça
Sua distância, e em nós o pranto vede,
Por onde Anjos em chusma gloriosa
Sobem e descem, com unção piedosa.
Primeiro, o Silêncio, onde um Arcanjo desce,
E o Véu se rasga à Luz que ao mundo vinha;
Depois, a palha vil, que um Rei no berço aquece,
E o Altar, a que a Pomba se avizinha.
Glória feliz, que em gozo se oferece,
Da manjedoura à casa pobrezinha,
Onde a Salve se entoa em voz primeira,
De toda a humana culpa alvissareira.
Mas, ai de mim! que a senda se faz dura,
E de outra cor a rosa se matiza;
No Horto o Sangue em gotas se afigura,
E a fronte o espinho agudo martiriza.
O Lenho excelso a mísera criatura
Nos ombros toma, e o Gólgota já pisa,
Mostrando as chagas cinco, onde se encerra
O preço que resgata Céu e Terra.
E a Espada aguda, ó Mãe, que a dor te afia,
Profético punhal na alma cravado,
Em cada conta tua alma se agonia,
Contigo chora o Povo desterrado.
Teus ais são nossa força e companhia,
Teu pranto, nosso bem-aventurado
Refúgio, onde a soberba se desfaça,
E o coração se lave em mar de graça.
Mas eis que a pedra fria se demove!
E a Alva rompe em glória sempiterna;
A Nuvem o arrebata e ao Pai o devolve,
E o Fogo Santo as línguas desenterra.
Vence a Morte o que a Morte em si revolve,
E abre os umbrais da jubilosa serra,
Até que a carne assunta aos Céus se alteia,
E de toda a virtude o empíreo encheia.
Até que a fronte angélica se assente
No sólio excelso, onde o universo impera,
Rainha! Augusta! Estrela refulgente!
Ante quem treme a abismal pantera.
E a tua mão, que esmaga a vil serpente,
Suspende a justa cólera severa
De Deus, e nos alcança o fim ditoso
Da pátria celestial, de eterno gozo.
Ó corrente de amor, que os Céus desata!
Ó gládio fulgurante, ó sacro escudo!
Ó coroa de luz, pura e imaculata,
Que faz o forte fraco, o sábio mudo!
Alma cativa, que a soberba mata,
Deixa o pão fátuo, o pensamento rudo,
E toma às mãos a milagrosa escada,
Em cada grão te espera a Pátria amada.
14/06/2025 | 14:07
O vos, per viam saeculi currentes,
Ó vós, que correis pelo caminho do mundo,
Qui spem in crastino ponitis die,
Vós que pondes a esperança no dia de amanhã,
Attendite hanc vocem de profundo,
Atendei a esta voz das profundezas,
Et quid sit esse sine Deo discite.
E aprendei o que é estar sem Deus.
“Cras,” dicebatis, “cras erit confessio.”
"Amanhã", dizíeis, "amanhã será a confissão".
Et mollis vita diluit rigorem.
E a vida mole diluía o rigor.
Nunc “cras” aeternum stat, sed spes perivit,
Agora o "amanhã" permanece eterno, mas a esperança pereceu,
Et tepor vester factus est gehenna.
E vossa tibieza tornou-se a Geena.
Non est hic flamma qualis ars depingit,
Não há aqui a chama que a arte retrata,
Sed ignis caecus, cordis intimus;
Mas um fogo cego, o mais íntimo do coração;
Est Lux negata, silentiumque Patris,
É a Luz negada, e o silêncio do Pai,
Quod plus quam ullus cruciat adustus.
Que crucifica o condenado mais do que qualquer chama.
Memoria Crucis, Panis et Calicis,
A memória da Cruz, do Pão e do Cálice,
Nunc stimulus est, non iam medicina.
Agora é um aguilhão, não mais um remédio.
Sero Redemptor! – clamitat cor amens –
"Tarde demais, Redentor!" – clama o coração insano –
Sero recordor vulnera benigna.
"Tarde demais recordo as chagas benignas".
Est porta clausa, seraque retenta,
A porta está fechada, e a tranca retida,
Et lacrimae hic nullam lavant culpam;
E as lágrimas aqui não lavam nenhuma culpa;
Flumen inane, sterile, perenne,
Um rio vão, estéril, perene,
Quod sitim auget, non levat tormentum.
Que aumenta a sede, não alivia o tormento.
Hic fletus ingens, stridor et dentium,
Aqui há o choro imenso, e o ranger de dentes,
Frigusque cordis quod recenset omne
E a frieza do coração que repassa cada
Peccatum amatum; ardor sine caritate
Pecado amado; um ardor sem caridade
In tenebris, quae palpari possent.
Nas trevas, que poderiam ser apalpadas.
Audite, vivi! Dum licet, redite!
Ouví, ó vivos! Enquanto é permitido, retornai!
Ne vestra fiat nostra desperatio,
Para que o vosso não se torne o nosso desespero,
Ne sitis umbrae in umbra sine fine,
Para que não sejais sombras numa sombra sem fim,
Ubi Amor ipse non est, sed memoria.
Onde o próprio Amor não está, mas apenas sua memória.
27/06/2025 | 20:23
Neste exílio da Luz, profundo abismo
De mim somente, em que a alma peregrina
Chora, sem norte, a senda já perdida,
Em noite escura que o pavor me ensina;
Carrego o peso imenso que me inclina
A esta terra de pó, vil, fementida;
E o peito, em seco e estéril descontento,
Acha em si mesmo o próprio grão tormento.
Ó Padre Eterno, Fonte de água pura,
De que afastado, em sede me desfaço!
Olhai esta misérrima figura,
Que a Vós se volve, já sem força e braço.
Esta distância que me fere e amargura,
Rompei co’a luz do Vosso brando abraço.
Atendei, pois, a voz que em dor se lança,
Que sem Vós, meu Senhor, não há esperança.
Lembro-me, sim, dos gostos que provara,
Fruto que em fel a boca me tornara,
Com que a Vossa presença me negara,
Por vil quimera que me cativara.
Hoje, o ardor primeiro que me abrasara
Em Vós, é gelo que minh’alma encara;
E em mim somente a culpa se encarcera,
Que do falso prazer seu jugo gera.
Não por valia que em meu ser pressinta,
Nem por obras que possa oferecer-Vos,
Mas por Vossa infinita e sacrossanta
Misericórdia, ouvi os meus protervos
Gritos de dor! A alma, em dor faminta,
Só na Vossa clemência acha os acervos
Da Graça, que o soberbo humilha e doma,
E o filho pródigo em seus braços toma.
Mal esta prece o lábio meu murmura,
Em meio à sombra que me cerca e oprime,
Um frouxo lume ao longe se afigura,
De cujo amor a escuridão se exime.
Não como raio que a soberba aterra,
Mas como a flama de candeia sublime,
Que o peito congelado me descerra,
Com sopro brando que a esperança anima.
Cesso, enfim, de lutar contra o meu Bem,
E o coração, que inquieto se feria,
Em Vós repousa, e paz e termo tem,
E em pranto a minha ingratidão expia.
Já sinto a força que de Vós me vem,
Vencida a noite, a despontar o dia,
Pois não há noite, abismo ou vil tormento
Que vença a Cruz e o Vosso mandamento.